No meio do pátio de marfim, você me encontrou.
Fora do tempo e do espaço, você me procurou.
E eu ouvi de seus lábios que a culpa foi toda minha.
"Você estragou tudo.
Você não me procurou quando eu te esperava.
Você não estava lá.
E quando você veio, era tarde."
E as lágrimas em seus olhos inundaram meu sonho.
E quando eu acordei, as lágrimas em meu rosto eram suas e minhas.
E, depois, você me encontrou de novo.
E eu não me lembro de nada, senão de seus olhos, seu cabelo.
Você me abraçou.
Você me beijou.
Um gesto de perdão, eu presumi.
E naquele momento, que não sabíamos se seria eterno ou passageiro, fomos completos.
E então eu acordei, mais uma vez.
E você não estava comigo.
Você foi embora faz tempo, e parece que de forma definitiva.
E eu continuo oco.
Ainda falta um pedaço, Evelyn...
"Não vês que me foge a alma e que me enjeita, buscando num só riso da tua boca, nos teus olhos azuis, mansa colheita?"
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Carta 057
Estou me afogando.
Agito meus braços, batendo-os contra a água escura e fria. Em vão.
Tateio com os pés cegos, buscando algo em que me apoiar. Em vão.
Ergo meu queixo. Tento tragar um pouco de ar enquanto meus pulmões se enchem de porções de água congelante.
O mar está cada vez mais forte.
Tento nadar contra a maré, mas as ondas me arrastam para baixo.
Tento gritar por socorro, mas o Oceano me invade a boca.
Tento pensar, mas a morte iminente me confunde e me cega.
Estou me afogando.
Imóvel agora, o frio me congela.
Cego, surdo e mudo, agora me resta apenas esperar.
Como uma chama perdida no escuro do Oceano, eu lentamente afundo.
Como um marinheiro naufragado, as sereias da maré me tragam ao fundo.
Eu ergo meu braço para fora do limiar do mar.
Mudo, eu falo seu nome mais uma vez.
Cego, eu vejo seu rosto mais uma vez.
...Evelyn, eu preciso de ajuda.
Agito meus braços, batendo-os contra a água escura e fria. Em vão.
Tateio com os pés cegos, buscando algo em que me apoiar. Em vão.
Ergo meu queixo. Tento tragar um pouco de ar enquanto meus pulmões se enchem de porções de água congelante.
O mar está cada vez mais forte.
Tento nadar contra a maré, mas as ondas me arrastam para baixo.
Tento gritar por socorro, mas o Oceano me invade a boca.
Tento pensar, mas a morte iminente me confunde e me cega.
Estou me afogando.
Imóvel agora, o frio me congela.
Cego, surdo e mudo, agora me resta apenas esperar.
Como uma chama perdida no escuro do Oceano, eu lentamente afundo.
Como um marinheiro naufragado, as sereias da maré me tragam ao fundo.
Eu ergo meu braço para fora do limiar do mar.
Mudo, eu falo seu nome mais uma vez.
Cego, eu vejo seu rosto mais uma vez.
...Evelyn, eu preciso de ajuda.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Carta 056
Dos teus beijos
o mel
Faz todo liquor do mundo
parecer fel.
E a luz que cinge no teu olhar
Faz toda a primavera
Desabrochar.
E o calor que de sua pele emana
Faz queimar de frio
A mais ardente chama.
E dos meus amores,
é e sempre será você
Aquela que tingirá meus sonhos
com as mais belas cores.
E em teus beijos, em teu perfume,
Em teus braços e em tuas cores
Eu espero me deitar para sempre
Coberto pelas mais tenras flores.
o mel
Faz todo liquor do mundo
parecer fel.
E a luz que cinge no teu olhar
Faz toda a primavera
Desabrochar.
E o calor que de sua pele emana
Faz queimar de frio
A mais ardente chama.
E dos meus amores,
é e sempre será você
Aquela que tingirá meus sonhos
com as mais belas cores.
E em teus beijos, em teu perfume,
Em teus braços e em tuas cores
Eu espero me deitar para sempre
Coberto pelas mais tenras flores.
domingo, 8 de setembro de 2013
Carta 054
Evelyn,
A cada dia que passa, eu me canso mais.
A ausência de tudo me preenche.
A sua ausência me incomoda.
E eu tento preencher esse vazio todo com álcool, na esperança de que o cigarro que eu vá fumar depois me incinere.
Eu tento preencher esse vazio todo com fumaça, na esperança doentia de que meus pulmões não mais consigam filtrar o ar que eu respiro.
Eu tento preencher esse vazio fugindo da cidade, na esperança de que uma dessas viagens seja minha última.
Eu tento preencher esse vazio correndo a mais de 180 quilômetros por hora. Na esperança de encontrar uma curva fechada demais.
Eu tento preencher esse vazio com alcaloides, na esperança de uma overdose eventual.
Eu tento preencher esse vazio fugindo da realidade.
E eu tento curar esse vazio encurtando cada vez mais minha vida.
A cada dia que passa, eu me canso mais.
A ausência de tudo me preenche.
A sua ausência me incomoda.
E eu tento preencher esse vazio todo com álcool, na esperança de que o cigarro que eu vá fumar depois me incinere.
Eu tento preencher esse vazio todo com fumaça, na esperança doentia de que meus pulmões não mais consigam filtrar o ar que eu respiro.
Eu tento preencher esse vazio fugindo da cidade, na esperança de que uma dessas viagens seja minha última.
Eu tento preencher esse vazio correndo a mais de 180 quilômetros por hora. Na esperança de encontrar uma curva fechada demais.
Eu tento preencher esse vazio com alcaloides, na esperança de uma overdose eventual.
Eu tento preencher esse vazio fugindo da realidade.
E eu tento curar esse vazio encurtando cada vez mais minha vida.
L.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Carta 053
Evelyn,
Essa distância toda ainda vai me matar.
Essa distância que aumenta à velocidade de treze mil nós vai me fazer enlouquecer.
Essa distância entre eu e você ainda me matará de saudades e tristeza.
Essa distância entre nossos corpos ainda vai me matar de ansiedade.
Essa distância entre você e suas emoções ao me negar ainda vão me matar afogado em minhas próprias lágrimas. Ou em meu próprio sangue.
Essa distância, que agora parece impossível de se diminuir, entre a realidade e a fantasia, ainda vai me matar de desilusão e decepção.
Sua ausência ainda vai me matar.
A ausência de sentimentos em você ainda vai me fazer enlouquecer.
Essa loucura toda ainda vai me fazer me matar, de forma lenta ou prolongada, em médio ou curto prazo, direta ou indiretamente...
Essa distância toda ainda vai me matar.
Essa distância que aumenta à velocidade de treze mil nós vai me fazer enlouquecer.
Essa distância entre eu e você ainda me matará de saudades e tristeza.
Essa distância entre nossos corpos ainda vai me matar de ansiedade.
Essa distância entre você e suas emoções ao me negar ainda vão me matar afogado em minhas próprias lágrimas. Ou em meu próprio sangue.
Essa distância, que agora parece impossível de se diminuir, entre a realidade e a fantasia, ainda vai me matar de desilusão e decepção.
Sua ausência ainda vai me matar.
A ausência de sentimentos em você ainda vai me fazer enlouquecer.
Essa loucura toda ainda vai me fazer me matar, de forma lenta ou prolongada, em médio ou curto prazo, direta ou indiretamente...
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Carta 052
Evelyn,
Sem palavras, eu emudeço e caio.
Deixo a gravidade me abraçar e estilhaço-me no chão em mil pedaços.
Quebrado.
Sem palavras, eu emudeço e caio.
Deixo a gravidade me abraçar e estilhaço-me no chão em mil pedaços.
Quebrado.
- L.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Carta 051
Vou chorar um rio de lágrimas por você. Um oceano inteiro de lágrimas por você.
E sobre ele, navegarei em um barco feito de saudades.
Tomarei como vela essa dor toda que restou em mim. Terei nossas lembranças como timoneiro.
Como bússola, usarei tudo que ainda sinto por você.
E assim, navegarei rumo ao horizonte.
Navegarei rumo ao infinito...
...Pois o infinito é você.
E sobre ele, navegarei em um barco feito de saudades.
Tomarei como vela essa dor toda que restou em mim. Terei nossas lembranças como timoneiro.
Como bússola, usarei tudo que ainda sinto por você.
E assim, navegarei rumo ao horizonte.
Navegarei rumo ao infinito...
...Pois o infinito é você.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Carta 050
Estou cansado, Evelyn.
Cansado do dissabor do cotidiano.
Cansado de acordar todo dia.
Cansado de estar sempre mais sóbrio do que deveria - mesmo que não esteja sequer próximo da sobriedade.
Cansado de estar distante.
Cansado de estar ofegante.
Cansado de estar perdido.
Cansado de não ter mais fome.
Cansado da ânsia que me acompanha o desjejum.
Cansado do desprazer de acordar todo dia.
Cansado desse vazio absoluto aqui dentro.
Cansado desse vazio absoluto ao meu redor.
Cansado de não fazer sentido.
Cansado de peregrinar sem razão.
Cansado de ser sem destino.
Cansado de vender minha alma por migalhas.
Cansado de estar só.
Cansado de sua ausência.
Cansado de drogas para manutenir meu humor.
Cansado de ver você em cada cigarro.
Em cada gole de vinho.
Em cada verso que eu escrevo.
Em cada música que ouço.
Em cada memória que eu guardo com carinho.
Em cada plano que eu tinha - e que agora devo abandonar.
Em cada lágrima minha.
Cansado da ausência do seu riso e da sua voz.
Cansado dos dias de sol.
Cansado de sentir saudade.
Cansado de sentir.
Cansado de estar cansado.
Cansado de estar.
Cansado de viver.
Cansado...
Cansado do dissabor do cotidiano.
Cansado de acordar todo dia.
Cansado de estar sempre mais sóbrio do que deveria - mesmo que não esteja sequer próximo da sobriedade.
Cansado de estar distante.
Cansado de estar ofegante.
Cansado de estar perdido.
Cansado de não ter mais fome.
Cansado da ânsia que me acompanha o desjejum.
Cansado do desprazer de acordar todo dia.
Cansado desse vazio absoluto aqui dentro.
Cansado desse vazio absoluto ao meu redor.
Cansado de não fazer sentido.
Cansado de peregrinar sem razão.
Cansado de ser sem destino.
Cansado de vender minha alma por migalhas.
Cansado de estar só.
Cansado de sua ausência.
Cansado de drogas para manutenir meu humor.
Cansado de ver você em cada cigarro.
Em cada gole de vinho.
Em cada verso que eu escrevo.
Em cada música que ouço.
Em cada memória que eu guardo com carinho.
Em cada plano que eu tinha - e que agora devo abandonar.
Em cada lágrima minha.
Cansado da ausência do seu riso e da sua voz.
Cansado dos dias de sol.
Cansado de sentir saudade.
Cansado de sentir.
Cansado de estar cansado.
Cansado de estar.
Cansado de viver.
Cansado...
domingo, 25 de agosto de 2013
Carta 049
Ausência de um norte. O inverso de um vício.
É assim, Evelyn, perdido, que vou morrendo aos poucos.
Vai ser assim, partindo, que meu suicídio se consumará.
Aos poucos.
Morrendo um pouco por dia, até chegar ao derradeiro fim...
E tudo que eu queria era um motivo que me prendesse aqui.
Algo que me fizesse ser completo aqui. Você.
Mas eu não pertenço a lugar nenhum.
Eu sou incompleto.
Em qualquer lugar...
É assim, Evelyn, perdido, que vou morrendo aos poucos.
Vai ser assim, partindo, que meu suicídio se consumará.
Aos poucos.
Morrendo um pouco por dia, até chegar ao derradeiro fim...
E tudo que eu queria era um motivo que me prendesse aqui.
Algo que me fizesse ser completo aqui. Você.
Mas eu não pertenço a lugar nenhum.
Eu sou incompleto.
Em qualquer lugar...
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Carta 048
Os soldados mordem a cápsula embebida em gordura de porco e derramam a pólvora no cano.
Eu não estou como eu imaginei que estaria: com o peito estufado e olhar impávido encarando o fogo dos canhões que me alvejam.
Não.
Eu estou abatido. curvado sobre mim mesmo, apoiando minhas mãos em minhas coxas.
Sinto minhas lágrimas escorrendo aos montes. Se essas armas não dispararem logo, sinto que meu corpo se tornará inteiro água e sal e eu serei absorvido pela terra antes que o sinal de "fogo" seja dado.
Meu nariz sangra. Minha fronte sangra. Em minhas mãos, sangue. Sinto meu sangue quente fugindo de mim mesmo. Sinto frio.
À minha volta, vejo apenas cinzas. Há pouco, eu ainda tinha alguma esperança.
Há pouco, eu estava firme em meu palácio de marfim.
Caíram muros e pilastras, e eu sozinho sustentei meu palácio com a força de minhas mãos.
Eu, sozinho.
Sempre sozinho.
Até o momento derradeiro em que aquela maldita ave passou por mim, e então eu soube.
Enquanto suas asas plainavam rumo aos céus, eu senti meu coração bater mais forte. Senti meu estômago se revirar e minha espinha congelar. Eu sabia que como a andorinha que voava para longe, você estava também partindo. E eu então desisti. Eu então me entreguei.
A última pilastra que sustentava tudo que eu era ruiu,e, com ela, eu ruí.
Eu sabia que nossos passos não iam mais se cruzar.
Eu sabia que eu não ia mais ouvir sua doce risada a preencher minha vida.
Nem seu toque. Nem seu cheiro.
Eu sabia que você, a partir daquele derradeiro momento, seria parte apenas do meu passado.
Dada a incerteza do futuro, eu aposto sempre no mais provável. E as probabilidades dizem que sim, esse é o nosso fim. Antes mesmo do nosso começo.
De joelhos, deixei que me arrastassem.
Imóvel, deixei que me linchassem.
Mudo, deixei que me humilhassem.
Eles engatilham agora suas armas. Treze homens me olham. Encaro-os um a um.
Quero que vejam o vazio inquieto que há por detrás de meus olhos.
Quero que saibam como é frio aqui dentro.
Tento me endireitar, mas não consigo.
Dor.
Olho para baixo novamente. Entre meus pés, um rio de lágrimas e sangue.
Sou o Colosso de Rodes prestes a cair.
Minha visão fica turva. Minha audição se torna abafada.
A qualquer momento agora eu irei partir, Evelyn.
Eu irei partir, talvez para sempre.
Talvez nunca mais nos vejamos.
Eu irei partir, e não em busca de mim mesmo ou de você desta vez.
Dessa vez, eu simplesmente irei partir.
E vou levar comigo toda dor e saudade que o mundo tem. Monopolizei a melancolia, e despirei o mundo de toda tristeza quando me for.
A qualquer momento agora eles irão puxar o gatilho, Evelyn.
E quando isso acontecer, eu cairei de joelhos, pronto para me afogar em meu próprio mar de sangue e sal.
Pronto para afundar com toda angústia e com todo desalento que atei a meus pés nos últimos dias de minha breve passagem por aqui.
A qualquer momento as armas irão disparar contra meu peito, Evelyn.
E quando eu cair de joelhos, com a consciência desvanecendo, eu lembrarei de você.
E em meu último suspiro, sussurrarei seu nome...
Sempre você, Evelyn...
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Carta 047
A cada dia que passa, evapora-se um pouco mais da minha escassa sanidade.
Estou sufocando em pó e fumaça. Eu corro de cidade em cidade durante a madrugada procurando algo que eu nem sei o que é. São seis da manhã e eu estou com os pés na areia fria do litoral fitando o mar gelado. Eu sinto o vento cortante de inverno no meu rosto...
Faz tempo que eu não tenho nenhuma notícia sua. E eu penso em você todo dia pela manhã e pela noite.
Eu me pergunto como anda sua vida, o que você tem feito... Eu sinto sua falta, e fico construindo cenários fantasiosos em minha cabeça onde nós nos encontramos. Se eu me visse, certamente me acharia patético.
E você deve achar algo assim também. Seu recente sumiço me fez questionar se seus sumiços se dão por acaso do destino ou por opção. E eu, imerso em meu poder de julgamento comprometido por um bom punhado de dores e uma depressão crônica que vem me corroendo nos últimos meses, acredito que essa distância crescendo entre nós é de seu agrado. Talvez não de seu desejo de forma ativa, mas de seu agrado...
É o segundo dia afastado de minha casa. Eu pensei em rumar para o sul para te ver. Ou para o norte. Eu já nem sei mais onde estou. Eu mal sinto meus pés na areia fria. Eu sinto a umidade do ar e o sal da água sobre meu peito nu enquanto caminho pela praia. Está tão frio que meu coração até parece quente. Está tão frio que até parece que ainda há algum calor em mim...
...Talvez eu devesse parar de lutar. Talvez eu devesse simplesmente deixar você seguir seu caminho agora. Ignorar a dor que explode dentro de meu peito quando penso em te deixar partir para sempre. Ignorar as lágrimas que me afogam de noite quando penso em te perder para sempre. Ignorar tudo que sinto por você. E simplesmente sumir também...
...Meu ponto é que eu não caibo aqui. Não apenas nessa cidade, mas em todo esse modelo de sociedade. Aqui não é meu lugar. Eu simplesmente não me encaixo. E eu tento de todas as formas encontrar um buraco, um bueiro ou uma toca para me enfiar e conseguir ser feliz em meio a toda essa hipocrisia e toda essa aleatoriedade sem sentido que não a leva a lugar nenhum e que norteia todos ao meu redor.
E eu consigo ser feliz quando estou ao seu lado. Mas eu não estou ao seu lado. E, aparentemente, não vou estar. Pois se não há lugar nessa cidade para mim, nem nessa sociedade, aparentemente não há lugar para mim também no seu mundo.
Talvez eu devesse simplesmente ir embora. E deixar tudo seguir seu curso, Evelyn...
Estou sufocando em pó e fumaça. Eu corro de cidade em cidade durante a madrugada procurando algo que eu nem sei o que é. São seis da manhã e eu estou com os pés na areia fria do litoral fitando o mar gelado. Eu sinto o vento cortante de inverno no meu rosto...
Faz tempo que eu não tenho nenhuma notícia sua. E eu penso em você todo dia pela manhã e pela noite.
Eu me pergunto como anda sua vida, o que você tem feito... Eu sinto sua falta, e fico construindo cenários fantasiosos em minha cabeça onde nós nos encontramos. Se eu me visse, certamente me acharia patético.
E você deve achar algo assim também. Seu recente sumiço me fez questionar se seus sumiços se dão por acaso do destino ou por opção. E eu, imerso em meu poder de julgamento comprometido por um bom punhado de dores e uma depressão crônica que vem me corroendo nos últimos meses, acredito que essa distância crescendo entre nós é de seu agrado. Talvez não de seu desejo de forma ativa, mas de seu agrado...
É o segundo dia afastado de minha casa. Eu pensei em rumar para o sul para te ver. Ou para o norte. Eu já nem sei mais onde estou. Eu mal sinto meus pés na areia fria. Eu sinto a umidade do ar e o sal da água sobre meu peito nu enquanto caminho pela praia. Está tão frio que meu coração até parece quente. Está tão frio que até parece que ainda há algum calor em mim...
...Talvez eu devesse parar de lutar. Talvez eu devesse simplesmente deixar você seguir seu caminho agora. Ignorar a dor que explode dentro de meu peito quando penso em te deixar partir para sempre. Ignorar as lágrimas que me afogam de noite quando penso em te perder para sempre. Ignorar tudo que sinto por você. E simplesmente sumir também...
...Meu ponto é que eu não caibo aqui. Não apenas nessa cidade, mas em todo esse modelo de sociedade. Aqui não é meu lugar. Eu simplesmente não me encaixo. E eu tento de todas as formas encontrar um buraco, um bueiro ou uma toca para me enfiar e conseguir ser feliz em meio a toda essa hipocrisia e toda essa aleatoriedade sem sentido que não a leva a lugar nenhum e que norteia todos ao meu redor.
E eu consigo ser feliz quando estou ao seu lado. Mas eu não estou ao seu lado. E, aparentemente, não vou estar. Pois se não há lugar nessa cidade para mim, nem nessa sociedade, aparentemente não há lugar para mim também no seu mundo.
Talvez eu devesse simplesmente ir embora. E deixar tudo seguir seu curso, Evelyn...
L.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Carta 046
Mais um ano, Evelyn.
E eu estou sentado debaixo de um viaduto, bebendo e fumando.
Acima de mim, o silêncio de um céu poluído.
Ao meu redor, os fantasmas que assombram essa cidade amaldiçoada.
Embriagado, eu morro pouco a pouco.
Sozinho, vejo minha vida se encurtando como o cigarro em minhas mãos.
Menos um ano, Evelyn.
E eu estou deitado à sombra de um viaduto.
Acima de mim, fumaça e solidão.
Ao meu redor, o vazio.
Cansado, eu sinto meu peito oco, meus olhos marejados e minha boca seca.
Inerte, espero a noite me levar para qualquer lugar.
Qualquer lugar que seja um pouco mais perto de você.
E eu estou sentado debaixo de um viaduto, bebendo e fumando.
Acima de mim, o silêncio de um céu poluído.
Ao meu redor, os fantasmas que assombram essa cidade amaldiçoada.
Embriagado, eu morro pouco a pouco.
Sozinho, vejo minha vida se encurtando como o cigarro em minhas mãos.
Menos um ano, Evelyn.
E eu estou deitado à sombra de um viaduto.
Acima de mim, fumaça e solidão.
Ao meu redor, o vazio.
Cansado, eu sinto meu peito oco, meus olhos marejados e minha boca seca.
Inerte, espero a noite me levar para qualquer lugar.
Qualquer lugar que seja um pouco mais perto de você.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Carta 045
Sou só sempre que sem você,
Sou só sombra sem sua luz:
Só uma nau solitária à mercê
de você e da sua voz que me seduz.
Sigo sempre em frente,
Cego e só e soturno,
Seguindo meu coração ardente
Que dissipa o silêncio noturno.
E por ser eu sem você sozinho,
Sigo sempre valente, sempre insistente.
Seguindo seu coração traço meu caminho,
Pois nunca sou só quando tu estás presente.
Sou só sombra sem sua luz:
Só uma nau solitária à mercê
de você e da sua voz que me seduz.
Sigo sempre em frente,
Cego e só e soturno,
Seguindo meu coração ardente
Que dissipa o silêncio noturno.
E por ser eu sem você sozinho,
Sigo sempre valente, sempre insistente.
Seguindo seu coração traço meu caminho,
Pois nunca sou só quando tu estás presente.
terça-feira, 9 de julho de 2013
Carta 044
A primeira noite longe de você
É sempre a mais fria.
É sempre a mais triste.
É sempre a mais incompleta.
O primeiro dia longe de você
É sempre o mais frio.
Sempre o mais cinza.
É sempre um dia sem sol.
A primeira refeição longe de você
É sempre a mais insípida.
É sempre a mais insossa.
É como comer areia.
As primeiras semanas longe de você
São sempre as mais frias.
Sempre as mais duras.
São sempre as semanas mais vazias que eu já vivi.
E a vida longe de você
É sempre vazia.
É fria. Triste. Insípida. Insossa.
É dura. É cinza e incompleta. É só areia...
É sempre a mais fria.
É sempre a mais triste.
É sempre a mais incompleta.
O primeiro dia longe de você
É sempre o mais frio.
Sempre o mais cinza.
É sempre um dia sem sol.
A primeira refeição longe de você
É sempre a mais insípida.
É sempre a mais insossa.
É como comer areia.
As primeiras semanas longe de você
São sempre as mais frias.
Sempre as mais duras.
São sempre as semanas mais vazias que eu já vivi.
E a vida longe de você
É sempre vazia.
É fria. Triste. Insípida. Insossa.
É dura. É cinza e incompleta. É só areia...
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Carta 043
Na nossa primeira despedida, eu chorei.
Chorei, e você nem sabe disso.
Eu chorei e chorei, e eu só parei de chorar quando finalmente consegui pegar no sono horas depois naquele mesmo dia.
Na nossa segunda despedida, eu fui mais forte.
Na nossa segunda despedida, eu não chorei.
Isso, claro, se você não contar aquelas lágrimas perdidas que correram meu rosto aos pares hora ou outra durante o dia.
E agora, na nossa terceira despedida, eu tento me manter forte.
Sinto aquela sensação dentro de mim - um misto de saudades, tristeza e esperança - que só você me provoca.
Sinto meus olhos enchendo-se de lágrimas.
Sinto meu peito prestes a explodir.
Sinto sua ausência.
Sinto sua falta, mais que tudo agora...
Chorei, e você nem sabe disso.
Eu chorei e chorei, e eu só parei de chorar quando finalmente consegui pegar no sono horas depois naquele mesmo dia.
Na nossa segunda despedida, eu fui mais forte.
Na nossa segunda despedida, eu não chorei.
Isso, claro, se você não contar aquelas lágrimas perdidas que correram meu rosto aos pares hora ou outra durante o dia.
E agora, na nossa terceira despedida, eu tento me manter forte.
Sinto aquela sensação dentro de mim - um misto de saudades, tristeza e esperança - que só você me provoca.
Sinto meus olhos enchendo-se de lágrimas.
Sinto meu peito prestes a explodir.
Sinto sua ausência.
Sinto sua falta, mais que tudo agora...
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Carta 042
Eu espero morrer vazio de mim mesmo.
Passeio pela vida dos outros e, com ou sem permissão, semeio um pouco de mim mesmo na vida deles.
E, por onde quer que você vá, se eu por lá já passei, um pouco de mim você verá.
Seja nas palavras do velho louco sob a cachoeira,
Seja nas marcas que emolduram o espelho naquele hotel no centro de Curitiba,
Seja no breve sorriso de identificação do violonista numa ilha qualquer,
Seja o meu sotaque que já não pertence mais a lugar nenhum,
Seja na marca de pneu sobre alguma autoestrada
Ou até mesmo na memória quase apagada da senhora que mora ao lado do alambique.
Não obstante, a cada centeia de mim que eu perco para o mundo, recolho do mundo um pedaço novo de mim mesmo.
Seja a simpatia dos gitanos que conheci enquanto procurava um caminho numa estrada qualquer,
Seja as mensagens, os dizeres e as eternizadas juras de amor eterno que marcam as paredes de um hotel no litoral do Paraná,
Seja o sorriso quase pueril do vendedor de algodão-doce que conheci por simples acaso,
Sejam os gritos por liberdade e justiça que gritei e ouvi enquanto dividia as avenidas com meus mais de duzentos mil irmãos,
Ou até mesmo as intermináveis risadas que já ouvi e até hoje ecoam em minha memória, ou os rios de lágrimas que enxuguei e até compartilhei...
Seja toda essa troca justa ou não,
À despeito de toda a saudade que faz meu peito pesar,
E apesar da dor da saudade que possa vir a me assombrar,
Eu espero sim poder me semear pelo mundo e pelas pessoas pelas quais eu passar.
Espero cada vez mais de vida me preencher, e cada vez mais de mim me desfazer...
Passeio pela vida dos outros e, com ou sem permissão, semeio um pouco de mim mesmo na vida deles.
E, por onde quer que você vá, se eu por lá já passei, um pouco de mim você verá.
Seja nas palavras do velho louco sob a cachoeira,
Seja nas marcas que emolduram o espelho naquele hotel no centro de Curitiba,
Seja no breve sorriso de identificação do violonista numa ilha qualquer,
Seja o meu sotaque que já não pertence mais a lugar nenhum,
Seja na marca de pneu sobre alguma autoestrada
Ou até mesmo na memória quase apagada da senhora que mora ao lado do alambique.
Não obstante, a cada centeia de mim que eu perco para o mundo, recolho do mundo um pedaço novo de mim mesmo.
Seja a simpatia dos gitanos que conheci enquanto procurava um caminho numa estrada qualquer,
Seja as mensagens, os dizeres e as eternizadas juras de amor eterno que marcam as paredes de um hotel no litoral do Paraná,
Seja o sorriso quase pueril do vendedor de algodão-doce que conheci por simples acaso,
Sejam os gritos por liberdade e justiça que gritei e ouvi enquanto dividia as avenidas com meus mais de duzentos mil irmãos,
Ou até mesmo as intermináveis risadas que já ouvi e até hoje ecoam em minha memória, ou os rios de lágrimas que enxuguei e até compartilhei...
Seja toda essa troca justa ou não,
À despeito de toda a saudade que faz meu peito pesar,
E apesar da dor da saudade que possa vir a me assombrar,
Eu espero sim poder me semear pelo mundo e pelas pessoas pelas quais eu passar.
Espero cada vez mais de vida me preencher, e cada vez mais de mim me desfazer...
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Carta 041
Mimha querida Evelyn,
Estou deitado em meu leito hospitalar, uma pequena choupana perdida no hemisfério entre duas nações que eu mal conheço, onde, de um lado da fronteira, se encontra um infinito de coisas das quais meu peito sente falta, e, do outro, há outro milhar de coisas que eu sequer conheço - e quiçá jamais conhecerei - e já sinto falta.
Sinto todo o meu corpo lutando contra si mesmo. Um espetáculo circense de dor e agonia. E, no meio do picadeiro, estou eu.
Admirável público, observem enquanto eu desapareço!
Admirável público, observem enquanto eu padeço!
Eu abro meus olhos preguiçosamente. Ao meu lado, o jogo de ervas, comprimidos e pedras místicas do curandeiro velam meu corpo. Suas ervas cheiram a lírios. Me pergunto se ele pretendia usá-los para me tratar ou para adornar minha cova. Seus comprimidos se parecem dietilamina de ácido lisérgico. Suas pedras místicas bem que poderiam ter sido extraídas de meu próprio rim. Três perfeitas pedras afiadas e brilhantes de lápis-lazúli adornando minhas entranhas.
Entorpecido, me levanto e caminho cambaleante até a porta. Minhas pupilas dilatadas aliadas à minha dor de cabeça me fazem esbarrar nas sombras desfocadas dos móveis na choupana - E quiçá até no próprio curandeiro, que bem poderia estar derretendo sobre uma mesa ou uma escrivaninha relatando sua jornada do dia anterior através dos labirintois distorcidos de sua própria mente regada a raízes enteógenas e folhas mágicas.
Lá fora, a lua me cega como se fosse dia.
Dietilamida de ácido lisérgico faz isso com você.
Meus pés caminham sobre a fina camada de vácuo que existe entre o chão e eu.
Quando você toca algo, não importa o quê, você nunca toca algo. Não de verdade.
Ouço um som. Ao meu redor, as estrelas despencam do firmamento e a lua se desmancha como um dente-de-leão. Eu olho e, longe n'Orizonte, vejo a silhueta de uma menina.
Siga o Coelho Branco.
Meus pés se movem sozinhos em direção a ela. Ouço o som dos meus passos bem atrás de mim. Depois de caminhar os primeiros metros a inércia se encarrega de te manter em movimento.
Os passos atrás de mim tornam-se mais distantes. Caminho mais rápido que a velocidade do som. Avanço cada vez mais rápido através da noite que se desfaz - literalmente - à minha volta.
"Você está no caminho errado!", gritou a voz atrás de mim. "Você está voltando!"
Os passos atrás de mim cessaram. Por cima de meu ombro, vi a silhueta do curandeiro distante agora, entre a choupana e eu.
"Você está voltando!", ele gritou.
"Sim", respondi.
"O coelho branco", respondi.
"Mas é o caminho errado!" ele disse.
"Não".
Respondi.
Não. O caminho certo é sempre o caminho que me leva até ela. E eu corri. Mais rápido que meus pés. Mais rápido que meus pensamentos. Mais rápido que a noite moribunda, eu corri.
Eu estou voltando, Evelyn. Voltando para você. Seguindo o coelho branco. E eu devo chegar a tempo da hora do chá, murri shukar.
Estou deitado em meu leito hospitalar, uma pequena choupana perdida no hemisfério entre duas nações que eu mal conheço, onde, de um lado da fronteira, se encontra um infinito de coisas das quais meu peito sente falta, e, do outro, há outro milhar de coisas que eu sequer conheço - e quiçá jamais conhecerei - e já sinto falta.
Sinto todo o meu corpo lutando contra si mesmo. Um espetáculo circense de dor e agonia. E, no meio do picadeiro, estou eu.
Admirável público, observem enquanto eu desapareço!
Admirável público, observem enquanto eu padeço!
***
Eu abro meus olhos preguiçosamente. Ao meu lado, o jogo de ervas, comprimidos e pedras místicas do curandeiro velam meu corpo. Suas ervas cheiram a lírios. Me pergunto se ele pretendia usá-los para me tratar ou para adornar minha cova. Seus comprimidos se parecem dietilamina de ácido lisérgico. Suas pedras místicas bem que poderiam ter sido extraídas de meu próprio rim. Três perfeitas pedras afiadas e brilhantes de lápis-lazúli adornando minhas entranhas.
Entorpecido, me levanto e caminho cambaleante até a porta. Minhas pupilas dilatadas aliadas à minha dor de cabeça me fazem esbarrar nas sombras desfocadas dos móveis na choupana - E quiçá até no próprio curandeiro, que bem poderia estar derretendo sobre uma mesa ou uma escrivaninha relatando sua jornada do dia anterior através dos labirintois distorcidos de sua própria mente regada a raízes enteógenas e folhas mágicas.
Lá fora, a lua me cega como se fosse dia.
Dietilamida de ácido lisérgico faz isso com você.
Meus pés caminham sobre a fina camada de vácuo que existe entre o chão e eu.
Quando você toca algo, não importa o quê, você nunca toca algo. Não de verdade.
Ouço um som. Ao meu redor, as estrelas despencam do firmamento e a lua se desmancha como um dente-de-leão. Eu olho e, longe n'Orizonte, vejo a silhueta de uma menina.
Siga o Coelho Branco.
Meus pés se movem sozinhos em direção a ela. Ouço o som dos meus passos bem atrás de mim. Depois de caminhar os primeiros metros a inércia se encarrega de te manter em movimento.
Os passos atrás de mim tornam-se mais distantes. Caminho mais rápido que a velocidade do som. Avanço cada vez mais rápido através da noite que se desfaz - literalmente - à minha volta.
"Você está no caminho errado!", gritou a voz atrás de mim. "Você está voltando!"
Os passos atrás de mim cessaram. Por cima de meu ombro, vi a silhueta do curandeiro distante agora, entre a choupana e eu.
"Você está voltando!", ele gritou.
"Sim", respondi.
"O coelho branco", respondi.
"Mas é o caminho errado!" ele disse.
"Não".
Respondi.
Não. O caminho certo é sempre o caminho que me leva até ela. E eu corri. Mais rápido que meus pés. Mais rápido que meus pensamentos. Mais rápido que a noite moribunda, eu corri.
Eu estou voltando, Evelyn. Voltando para você. Seguindo o coelho branco. E eu devo chegar a tempo da hora do chá, murri shukar.
L.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Carta 040
Eu preciso voltar, meu amor.
Ver no horizonte, dividindo a imensidão azul ao meio, nossa ilha.
Nosso paraíso na terra.
Para lá, naquela pequena linha que divide o céu da terra.
Para além de lá, o infinito, minha querida Evelyn.
O infinito e você.
O infinito é você...
Ver no horizonte, dividindo a imensidão azul ao meio, nossa ilha.
Nosso paraíso na terra.
Para lá, naquela pequena linha que divide o céu da terra.
Para além de lá, o infinito, minha querida Evelyn.
O infinito e você.
O infinito é você...
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Carta 039
Evelyn,
Faz mais de uma semana que peregrino perdido.
Mais de uma semana que caminho sem saber para onde.
Outro dia, outra cidade.
Vivo de caronas. Meu alimento é a luz do sol. Meu teto, se não o teto empoeirado e sujo da carroceria de um caminhão velho ou o teto sujo e caindo aos pedaços de um celeiro abandonado, é o teto limpo e estrelado da noite. Meus pés são minhas solas de sapato já gastas ou os pneus de borracha sobre o asfalto quente de algum viajante perdido.
Levo comigo só o essencial: um caderno para lhe escrever. Uma mochila com o pouco de roupas que consegui reunir. Minha mente confusa. Meu olhar perdido. Minha alma condenada.
Por mais que, por vezes, meu corpo pareça estar à beira de um colapso, minha alma cada vez mais se fortalece. Cada vez que minhas pernas falham e eu vou ao chão sob o sol escaldante que divide a fronteira de dois estados, sinto minha alma engrandecendo. Sinto que estou moldando meu espírito às custas de meu próprio corpo. Um Davi feito de sangue e suor. Vênus de Milo feita de dor e sacrifício. Minha Magnum Opus é minha jornada em busca de mim mesmo, rumo a lugar nenhum.
E eu não temo o frio da noite.
Eu não temo o calor que castiga, nem a solidão que me afoga.
Não temo a escuridão quase palpável que se deita comigo. Não temo não voltar.
Mas, só de pensar que talvez eu possa nunca mais te reencontrar, meu estômago dá um nó e meu coração pára de bater por um segundo.
Por vezes meus pés ameaçaram dar meia-volta. Por vezes, eu receei continuar.
Não que eu não pretenda voltar. Mas ainda não é hora...
E, se por acaso, minha jornada lhe preocupa, lembre-se: eu jamais ando só. Pois se em minha mente impávida eu caminho solitário em busca de mim mesmo, em meu coração eu trago sempre seus beijos e abraços.
Não importa aonde eu vá, Evelyn, um pedaço seu sempre estará comigo.
E, se de noite ao se deitar você sentir alguma centeia de melancolia ou de tristeza, tenha certeza: é um pedaço de mim mesmo que tu carregas dentro de ti...
Faz mais de uma semana que peregrino perdido.
Mais de uma semana que caminho sem saber para onde.
Outro dia, outra cidade.
Vivo de caronas. Meu alimento é a luz do sol. Meu teto, se não o teto empoeirado e sujo da carroceria de um caminhão velho ou o teto sujo e caindo aos pedaços de um celeiro abandonado, é o teto limpo e estrelado da noite. Meus pés são minhas solas de sapato já gastas ou os pneus de borracha sobre o asfalto quente de algum viajante perdido.
Levo comigo só o essencial: um caderno para lhe escrever. Uma mochila com o pouco de roupas que consegui reunir. Minha mente confusa. Meu olhar perdido. Minha alma condenada.
Por mais que, por vezes, meu corpo pareça estar à beira de um colapso, minha alma cada vez mais se fortalece. Cada vez que minhas pernas falham e eu vou ao chão sob o sol escaldante que divide a fronteira de dois estados, sinto minha alma engrandecendo. Sinto que estou moldando meu espírito às custas de meu próprio corpo. Um Davi feito de sangue e suor. Vênus de Milo feita de dor e sacrifício. Minha Magnum Opus é minha jornada em busca de mim mesmo, rumo a lugar nenhum.
E eu não temo o frio da noite.
Eu não temo o calor que castiga, nem a solidão que me afoga.
Não temo a escuridão quase palpável que se deita comigo. Não temo não voltar.
Mas, só de pensar que talvez eu possa nunca mais te reencontrar, meu estômago dá um nó e meu coração pára de bater por um segundo.
Por vezes meus pés ameaçaram dar meia-volta. Por vezes, eu receei continuar.
Não que eu não pretenda voltar. Mas ainda não é hora...
E, se por acaso, minha jornada lhe preocupa, lembre-se: eu jamais ando só. Pois se em minha mente impávida eu caminho solitário em busca de mim mesmo, em meu coração eu trago sempre seus beijos e abraços.
Não importa aonde eu vá, Evelyn, um pedaço seu sempre estará comigo.
E, se de noite ao se deitar você sentir alguma centeia de melancolia ou de tristeza, tenha certeza: é um pedaço de mim mesmo que tu carregas dentro de ti...
L.
domingo, 19 de maio de 2013
Carta 038
Evelyn, minha querida e agora distante Evelyn...
Meu peito arde e meu coração bate com dificuldade sob toda a pressão que sobre ele se deposita. Meus ventrículos bombeiam sangue a temperaturas escaldantes. Eu sou uma bomba de fissão atômica prestes a explodir. Glóbulos e plaquetas no lugar de plutônio e urânio. Adrenalina no lugar de nêutrons.
Meus pés, pesadas botas de um mergulhador dentro de um escafandro, subitamente tornam-se leves e são capazes de andar sobre a água quando te vejo.
Meus olhos, globos de vidro inertes, quando à sua luz, marejam e deixam escorrer de sua fonte as águas que bem poderiam correr rumo ao Mar Morto.
Sinto a revolução de todas as moléculas de meu âmago. Ouço o som de minhas sinapses movidas à vapor.
É a sua falta, Evelyn. A sua falta que me fará explodir e levar comigo uma Nagasaki inteira e meia Hiroshima. É a dor de não ter você aqui comigo que vai me fazer chover chuva tóxica sobre as plantações de Pripyat. É minha ansiedade toda que vai fazer o Exército Vermelho lançar sua Bomba H contra o ocidente. Meu nervosismo, que invade a Baía dos Porcos para depois ser rechaçado com a força de mil guerrilheiros.
Evelyn, o que sinto, essa vontade de te tocar, beijar. Sentir teu calor, sentir teu cheiro, é agora uma necessidade biológica.
Encontro-me absorto em memórias que escorrem sob cachoeiras perdidas em uma ilha paradisíaca. Memórias que vagam pelos centros de cidades que vibram ao som de mil violas e violinos. Memórias que velejam sobre o mar, tal qual um rei ou um príncipe. Memórias que me fazem perder o ar. Memórias que me fazem querer voar de volta para ti tal qual uma gaivota perdida.
Memórias que fazem meu sangue ferver de paixão e meu coração bater mais rápido. Pronto para detonar. Pronto para o Inverno Nuclear...
...E então, seríamos só nós dois, numa ilha deserta, sob a neve cinza, ao pé da serra ouvindo o mar.
...Só eu e você.
Meu peito arde e meu coração bate com dificuldade sob toda a pressão que sobre ele se deposita. Meus ventrículos bombeiam sangue a temperaturas escaldantes. Eu sou uma bomba de fissão atômica prestes a explodir. Glóbulos e plaquetas no lugar de plutônio e urânio. Adrenalina no lugar de nêutrons.
Meus pés, pesadas botas de um mergulhador dentro de um escafandro, subitamente tornam-se leves e são capazes de andar sobre a água quando te vejo.
Meus olhos, globos de vidro inertes, quando à sua luz, marejam e deixam escorrer de sua fonte as águas que bem poderiam correr rumo ao Mar Morto.
Sinto a revolução de todas as moléculas de meu âmago. Ouço o som de minhas sinapses movidas à vapor.
É a sua falta, Evelyn. A sua falta que me fará explodir e levar comigo uma Nagasaki inteira e meia Hiroshima. É a dor de não ter você aqui comigo que vai me fazer chover chuva tóxica sobre as plantações de Pripyat. É minha ansiedade toda que vai fazer o Exército Vermelho lançar sua Bomba H contra o ocidente. Meu nervosismo, que invade a Baía dos Porcos para depois ser rechaçado com a força de mil guerrilheiros.
Evelyn, o que sinto, essa vontade de te tocar, beijar. Sentir teu calor, sentir teu cheiro, é agora uma necessidade biológica.
Encontro-me absorto em memórias que escorrem sob cachoeiras perdidas em uma ilha paradisíaca. Memórias que vagam pelos centros de cidades que vibram ao som de mil violas e violinos. Memórias que velejam sobre o mar, tal qual um rei ou um príncipe. Memórias que me fazem perder o ar. Memórias que me fazem querer voar de volta para ti tal qual uma gaivota perdida.
Memórias que fazem meu sangue ferver de paixão e meu coração bater mais rápido. Pronto para detonar. Pronto para o Inverno Nuclear...
...E então, seríamos só nós dois, numa ilha deserta, sob a neve cinza, ao pé da serra ouvindo o mar.
...Só eu e você.
L.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Carta 037
Minha querida Evelyn,
Eu estou deixando esta casa, com a consciência leve e o futuro incerto, e a porta, não sei se a estou deixando aberta ou fechada.
Meu peito respira pesado. Minha gastrite me devora de dentro pra fora. Minhas costas doem.
E eu só consigo pensar em você. Você, do outro lado do sonho. Você, a quilômetros de distância. Você, que há pouco estava aqui, comigo, e hoje é substituída pelo denso ar da capital...
É sempre assim quando me despeço de você. Só saudade. Eu contando nos dedos os dias para te rever.
Rever seus olhos profundos que me confortam. Seu perfume que, de noite, preenche o quarto. Sua pele alva. Seu sorriso. Seu toque...
Evelyn, eu vou, e eu não sei pra onde nem por quanto tempo.
No que dependesse de mim, eu subiria na primeira locomotiva e iria de encontro a você. Ficaria no hotel mais próximo da sua casa para poder te ver todo dia. Acamparia à janela do teu quarto para de noite sentir o teu perfume. Acordaria mais cedo que você para te ver despertar.
Invejo seus sonhos, que podem ter você toda noite.
Invejo o espelho que está na sua cabeceira, pois pode te ver todo dia.
Evelyn, esse vazio que me preenche o peito não existe quando estou com você.
Evelyn... Meu peito respira com dificuldade.
Minha gastrite me devora de dentro pra fora.
Minhas mãos tremem... Eu não estou bem...
E tudo que eu queria agora era poder te segurar em meus braços...
Eu estou deixando esta casa, com a consciência leve e o futuro incerto, e a porta, não sei se a estou deixando aberta ou fechada.
Meu peito respira pesado. Minha gastrite me devora de dentro pra fora. Minhas costas doem.
E eu só consigo pensar em você. Você, do outro lado do sonho. Você, a quilômetros de distância. Você, que há pouco estava aqui, comigo, e hoje é substituída pelo denso ar da capital...
É sempre assim quando me despeço de você. Só saudade. Eu contando nos dedos os dias para te rever.
Rever seus olhos profundos que me confortam. Seu perfume que, de noite, preenche o quarto. Sua pele alva. Seu sorriso. Seu toque...
Evelyn, eu vou, e eu não sei pra onde nem por quanto tempo.
No que dependesse de mim, eu subiria na primeira locomotiva e iria de encontro a você. Ficaria no hotel mais próximo da sua casa para poder te ver todo dia. Acamparia à janela do teu quarto para de noite sentir o teu perfume. Acordaria mais cedo que você para te ver despertar.
Invejo seus sonhos, que podem ter você toda noite.
Invejo o espelho que está na sua cabeceira, pois pode te ver todo dia.
Evelyn, esse vazio que me preenche o peito não existe quando estou com você.
Evelyn... Meu peito respira com dificuldade.
Minha gastrite me devora de dentro pra fora.
Minhas mãos tremem... Eu não estou bem...
E tudo que eu queria agora era poder te segurar em meus braços...
L.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Carta 036
Eu sou a dor de todos os homens,
E a angústia de todas as mães
Cujos filhos atravessaram o Bojador para nunca mais.
Sou eu a demência que assombra Edgar,
E também o doente prazer sádico
Do corvo sobre o busto de Minerva, d'onde jamais sairá.
Eu sou a ingenuidade do homem iludido,
Traído pelo suposto amigo: O rei,
Cuja indiferença sou também eu, coroado sobre o trono de Pasárgada.
Sou a melancolia crônica que se despede de seus sonhos,
Que exalta suas dores e agradece às murchas flores
Sobre meu túmulo vazio - descansais em paz.
Toco minha última serenata n'uma flauta vértebra,
E, sozinho nos salões da memória - Diabos!
Não sou Maiakóvski ou Pessoa, sou a escória; Indesculpavemente sujo!
Sou infame, sou covarde, sou vil e errôneo;
Sou um poema em linha curva; Versos feitos de fel.
Sou um Orfeu sem Eurídice, sou Caim sem Abel. Sou sem propósito.
Lenore, eu sou perdido. Sem razão.
Lolita, eu vago só. Sem perdão.
Evelyn, eu me arrasto agora, na escuridão.
Louco, louco, louco! Foi o que me disseram quando disse que te amei.
Mas naveguei as águas puras dos teus olhos
E, com versos tão antigos, eu, sem querer, te afoguei...
E a angústia de todas as mães
Cujos filhos atravessaram o Bojador para nunca mais.
Sou eu a demência que assombra Edgar,
E também o doente prazer sádico
Do corvo sobre o busto de Minerva, d'onde jamais sairá.
Eu sou a ingenuidade do homem iludido,
Traído pelo suposto amigo: O rei,
Cuja indiferença sou também eu, coroado sobre o trono de Pasárgada.
Sou a melancolia crônica que se despede de seus sonhos,
Que exalta suas dores e agradece às murchas flores
Sobre meu túmulo vazio - descansais em paz.
Toco minha última serenata n'uma flauta vértebra,
E, sozinho nos salões da memória - Diabos!
Não sou Maiakóvski ou Pessoa, sou a escória; Indesculpavemente sujo!
Sou infame, sou covarde, sou vil e errôneo;
Sou um poema em linha curva; Versos feitos de fel.
Sou um Orfeu sem Eurídice, sou Caim sem Abel. Sou sem propósito.
Lenore, eu sou perdido. Sem razão.
Lolita, eu vago só. Sem perdão.
Evelyn, eu me arrasto agora, na escuridão.
Louco, louco, louco! Foi o que me disseram quando disse que te amei.
Mas naveguei as águas puras dos teus olhos
E, com versos tão antigos, eu, sem querer, te afoguei...
sábado, 4 de maio de 2013
Carta 035
Tá tudo bem se for
por amor às causas perdidas;
Tá tudo bem se for
por amor as causas perdidas.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Carta 034
Evelyn...
Eu ando muito ausente, eu sei.
Há tempos que uma carta minha não chega a você - o que não significa que eu não as tenha escrito, com tinta ou em meus pensamentos. Mais algumas a se somar na pilha de cartas que, em meu quarto, erguem-se à altura dos meus joelhos e se inclinam para o lado, tal qual uma Torre de Pisa construída com sentimentos abstratos transformados em cartas perdidas...
Pela última vez que te vi, você me perguntou se a razão pela qual meus pés caminham perdidos era você.
Se, por acaso, era você a responsável pelo meu olhar cansado e desiludido.
Se era você a semente dessa falta de cor em mim...
...Não, Evelyn. Esse meu desespero contido, essa minha angústia disfarçada com meu olhar blasé, minha ânsia que me queima por dentro, me digere vivo... Esse ácido que verte da minha pele e que, para disfarçar, eu saio a caminhar na chuva... Nada disso é culpa sua. O ponto, Evelyn, é que eu estou, mais uma vez, perdido. Mais uma vez, e mais do que nunca agora, perdido. Perdi meu norte. Perdi meu sol. Minhas bússolas.
Videie, minha cara! Olha para mim e me diz o que você vê!
E eu te digo o que eu vejo daqui de cima de meu navio: Um horizonte desfocado, depois do qual eu não sei o que me espera; Velas que ululam ao vento preguiçoso; Vejo corpos no mar, Evelyn! Todos os meus marujos me abandonaram. Todos os seus corpos afogados à minha volta; Eu não possuo mais um imponente navio - eu possuo um coffinship! Vejo as barbatanas de mil tubarões que seguem o rastro mórbido da minha passagem n'oceano. Vejo o convés vazio - ele bem que poderia ser meu próprio coração; vejo o céu negro e sem estrelas. Eu perdi meu norte, e navego sem bússolas.
Eu navego agora, Evelyn, sozinho e à revelia.
Que os deuses saibam melhor do que eu.
Ahoy, minha cara. Pois quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor...
Eu ando muito ausente, eu sei.
Há tempos que uma carta minha não chega a você - o que não significa que eu não as tenha escrito, com tinta ou em meus pensamentos. Mais algumas a se somar na pilha de cartas que, em meu quarto, erguem-se à altura dos meus joelhos e se inclinam para o lado, tal qual uma Torre de Pisa construída com sentimentos abstratos transformados em cartas perdidas...
Pela última vez que te vi, você me perguntou se a razão pela qual meus pés caminham perdidos era você.
Se, por acaso, era você a responsável pelo meu olhar cansado e desiludido.
Se era você a semente dessa falta de cor em mim...
...Não, Evelyn. Esse meu desespero contido, essa minha angústia disfarçada com meu olhar blasé, minha ânsia que me queima por dentro, me digere vivo... Esse ácido que verte da minha pele e que, para disfarçar, eu saio a caminhar na chuva... Nada disso é culpa sua. O ponto, Evelyn, é que eu estou, mais uma vez, perdido. Mais uma vez, e mais do que nunca agora, perdido. Perdi meu norte. Perdi meu sol. Minhas bússolas.
Videie, minha cara! Olha para mim e me diz o que você vê!
E eu te digo o que eu vejo daqui de cima de meu navio: Um horizonte desfocado, depois do qual eu não sei o que me espera; Velas que ululam ao vento preguiçoso; Vejo corpos no mar, Evelyn! Todos os meus marujos me abandonaram. Todos os seus corpos afogados à minha volta; Eu não possuo mais um imponente navio - eu possuo um coffinship! Vejo as barbatanas de mil tubarões que seguem o rastro mórbido da minha passagem n'oceano. Vejo o convés vazio - ele bem que poderia ser meu próprio coração; vejo o céu negro e sem estrelas. Eu perdi meu norte, e navego sem bússolas.
Eu navego agora, Evelyn, sozinho e à revelia.
Que os deuses saibam melhor do que eu.
Ahoy, minha cara. Pois quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor...
L.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Carta 033
Que se curvem aos meus pés todos os corações abandonados na noite!
Que toquem o chão frio os joelhos das almas perdidas e das mentes adoecidas!
Soem as trombetas, meus súditos, pois eu hei de passar!
Atirem rosas no meu caminho, perfumem minha passagem! Façam com que meus pés descalços andem sobre um tapete de pétalas vermelhas!
Parem o reino, parem o império, parem a república, pois eu hei de passar!
Venham todos a meu encontro, meus amados servos! Rastejem a meus pés, beijem-me as mãos, toquem-me os panos!
Soldados, continência! Capitães e marinheiros, todos me saúdam, pois sou vosso rei!
Eu caminho e o ouro da minha coroa é mais belo que o ouro do pôr-do-sol!
Sobre a terra, hoje sou o imperador de todos vocês!
Sob o sol ou sob a lua, sou eu hoje vosso rei!
Mais alto soem as trombetas, pois hoje eu sou mais que deus!
Sorriam enquanto eu passo, lamentem enquanto eu parto: Hoje eu sou a encarnação da tristeza!
Que toquem o chão frio os joelhos das almas perdidas e das mentes adoecidas!
Soem as trombetas, meus súditos, pois eu hei de passar!
Atirem rosas no meu caminho, perfumem minha passagem! Façam com que meus pés descalços andem sobre um tapete de pétalas vermelhas!
Parem o reino, parem o império, parem a república, pois eu hei de passar!
Venham todos a meu encontro, meus amados servos! Rastejem a meus pés, beijem-me as mãos, toquem-me os panos!
Soldados, continência! Capitães e marinheiros, todos me saúdam, pois sou vosso rei!
Eu caminho e o ouro da minha coroa é mais belo que o ouro do pôr-do-sol!
Sobre a terra, hoje sou o imperador de todos vocês!
Sob o sol ou sob a lua, sou eu hoje vosso rei!
Mais alto soem as trombetas, pois hoje eu sou mais que deus!
Sorriam enquanto eu passo, lamentem enquanto eu parto: Hoje eu sou a encarnação da tristeza!
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Carta 032
Evelyn,
Talvez eu tenha mentido para você, e por isso eu deveria me desculpar.
Como quando você me perguntou se estava tudo bem, e eu respondia que sim. Não, não está tudo bem.
Como quando você me perguntou se eu pretendia sumir de novo, e eu disse que não. Sim, eu acho que isso passou pela minha cabeça tanto nos últimos dias que já é quase uma idéia inabandonável.
E você me pergunta o que acontece... Eu não sei. Eu tenho algumas idéias, no entanto. Desde as dores que me escapam à boca a ânsia e o tossir seco, até a alma que se sente deslocada nessa cidade. Até meus pulmões que já trabalham por inércia e o coração que bate desacreditado. Me sinto um moribundo. Um imbecil caído no chão, em lugar nenhum, apenas esperando o derradeiro momento em que Ela viria me ceifar a alma. Mas tão decrépita alma, nem Morte nem Diabo nenhum quer. Nem deus nenhum. Anjo expulso dos céus e rejeitado pelo inferno, destinado a vagar pelo limbo até o dia do julgamento, quando seria também ignorado. Esquecido, jogado no vazio...
Talvez eu tenha mentido para você, e por isso eu deveria me desculpar.
Como quando você me perguntou se estava tudo bem, e eu respondia que sim. Não, não está tudo bem.
Como quando você me perguntou se eu pretendia sumir de novo, e eu disse que não. Sim, eu acho que isso passou pela minha cabeça tanto nos últimos dias que já é quase uma idéia inabandonável.
E você me pergunta o que acontece... Eu não sei. Eu tenho algumas idéias, no entanto. Desde as dores que me escapam à boca a ânsia e o tossir seco, até a alma que se sente deslocada nessa cidade. Até meus pulmões que já trabalham por inércia e o coração que bate desacreditado. Me sinto um moribundo. Um imbecil caído no chão, em lugar nenhum, apenas esperando o derradeiro momento em que Ela viria me ceifar a alma. Mas tão decrépita alma, nem Morte nem Diabo nenhum quer. Nem deus nenhum. Anjo expulso dos céus e rejeitado pelo inferno, destinado a vagar pelo limbo até o dia do julgamento, quando seria também ignorado. Esquecido, jogado no vazio...
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Carta 031
Evelyn...
Eu estou cansado.
Eu acordo manco. Eu caminho com meus joelhos falhando.
Minha gastrite me saúda todo dia, cada vez de forma mais veemente e, por vezes, eu me pego cessando uma caminhada devida às dores em meu estômago.
E tem mais as dores que os médicos não souberam explicar.
E eu ando nervoso. Estressado. Solitário. Triste.
E em demasia. Tudo isso em demasia. E eu simplesmente não sei lidar com tudo isso, e é por isso que eu tento medicar os sintomas do único jeito que eu sei.
E que venham as lutas, o sangue pintando as paredes, as mãos cortadas, os ossos trincados...
E que venham os entorpecentes, de venda controlada ou proibida. Troco toda minha seda por um bom punhado de ópio. Troco minha consciência por um bom punhado de algo pior ainda que o ópio.
Que venha o álcool, castigando o fígado e apaziguando a alma. Que venha tudo isso que me faz mal, e que por me fazer mal, me faz bem. Autodestruição do corpo para a gênese de uma nova alma. Sacrifício em nome de nada, nem ninguém...
Inversão dos números. Que meu sangue se torne ácido e termine por corroer meu corpo.
Eu já não ligo mais, Evelyn.
Porque aqui dentro, tem muita coisa errada, muita coisa fora do lugar....
...E talvez eu precise de ajuda mesmo, Evelyn...
Eu estou cansado.
Eu acordo manco. Eu caminho com meus joelhos falhando.
Minha gastrite me saúda todo dia, cada vez de forma mais veemente e, por vezes, eu me pego cessando uma caminhada devida às dores em meu estômago.
E tem mais as dores que os médicos não souberam explicar.
E eu ando nervoso. Estressado. Solitário. Triste.
E em demasia. Tudo isso em demasia. E eu simplesmente não sei lidar com tudo isso, e é por isso que eu tento medicar os sintomas do único jeito que eu sei.
E que venham as lutas, o sangue pintando as paredes, as mãos cortadas, os ossos trincados...
E que venham os entorpecentes, de venda controlada ou proibida. Troco toda minha seda por um bom punhado de ópio. Troco minha consciência por um bom punhado de algo pior ainda que o ópio.
Que venha o álcool, castigando o fígado e apaziguando a alma. Que venha tudo isso que me faz mal, e que por me fazer mal, me faz bem. Autodestruição do corpo para a gênese de uma nova alma. Sacrifício em nome de nada, nem ninguém...
Inversão dos números. Que meu sangue se torne ácido e termine por corroer meu corpo.
Eu já não ligo mais, Evelyn.
Porque aqui dentro, tem muita coisa errada, muita coisa fora do lugar....
...E talvez eu precise de ajuda mesmo, Evelyn...
L.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Carta 030
No meio da neblina meu corpo se dissolve,
Despedaçado e perdido, eu desvaneço na névoa.
Pendurado pelo pescoço, o frio me envolve,
E me devolve à paz outrora esquecida.
Despedaçado e perdido, eu desvaneço na névoa.
Pendurado pelo pescoço, o frio me envolve,
E me devolve à paz outrora esquecida.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Carta 029
Evelyn,
Me sinto como um marinheiro que parte só, num barco rumo ao desconhecido para além do horizonte. Deixando para trás tudo que lhe faz bem, e tudo que lhe faz mal, e tudo que ama e já amou. Solitário, o único caminho a seguir é à frente. Rumo ao eterno vazio da noite. Sozinho, lutando contra os ventos e as tempestades. Rendido à própria sorte. Indefeso, apenas esperando com o arpão em mãos pelo Leviatã que há de lhe virar o barco e lhe tragar ao leito d'oceano.
Às vezes acho que tudo isso é demais, Evelyn, e acho que esse oceano todo que me afoga sou eu mesmo. É possível morrer afogado em si mesmo?
E às vezes eu acho que eu poderia chorar um Ganges inteiro. Abençoar toda Varanasi com o sal de minha tristeza, e observar enquanto eu mesmo seria cremado em uma pira à beira do rio.
Vestes brancas e cinzas brancas.
Um brâmane exilado, abandonado, afogado em vermilion.
Um xátria armado, disposto a morrer por orgulho. Disposto a se matar por orgulho.
Um vaixá com todo um comboio de desilusões e potes cheios de nada e baús forrados com todo o sal que eu consegui filtrar de minhas próprias lágrimas.
Um shudra que se arrasta e se banha no rio profano. Que se curva à própria mediocridade.
Um pária. Sozinho e abandonado.
E, sem querer assim, de tanta dor no rio outrora sagrado, toda Calcutá fugiria com pesar no coração, e toda Bangladesh partiria com o peito sufocado... E toda Varanasi, de tanta santidade, morreria. E toda vida no Ganges não mais existiria. Pois aqui dentro a angústia é tanta, que vida nenhuma habitaria às margens do rio que nasce em meu âmago. E seria assim que, em sal e cinzas, eu encontraria meu fim às margens do Oceano Índico, afogado em mim mesmo...
Afogado no meu próprio Rio Ganges...
Me sinto como um marinheiro que parte só, num barco rumo ao desconhecido para além do horizonte. Deixando para trás tudo que lhe faz bem, e tudo que lhe faz mal, e tudo que ama e já amou. Solitário, o único caminho a seguir é à frente. Rumo ao eterno vazio da noite. Sozinho, lutando contra os ventos e as tempestades. Rendido à própria sorte. Indefeso, apenas esperando com o arpão em mãos pelo Leviatã que há de lhe virar o barco e lhe tragar ao leito d'oceano.
Às vezes acho que tudo isso é demais, Evelyn, e acho que esse oceano todo que me afoga sou eu mesmo. É possível morrer afogado em si mesmo?
E às vezes eu acho que eu poderia chorar um Ganges inteiro. Abençoar toda Varanasi com o sal de minha tristeza, e observar enquanto eu mesmo seria cremado em uma pira à beira do rio.
Vestes brancas e cinzas brancas.
Um brâmane exilado, abandonado, afogado em vermilion.
Um xátria armado, disposto a morrer por orgulho. Disposto a se matar por orgulho.
Um vaixá com todo um comboio de desilusões e potes cheios de nada e baús forrados com todo o sal que eu consegui filtrar de minhas próprias lágrimas.
Um shudra que se arrasta e se banha no rio profano. Que se curva à própria mediocridade.
Um pária. Sozinho e abandonado.
E, sem querer assim, de tanta dor no rio outrora sagrado, toda Calcutá fugiria com pesar no coração, e toda Bangladesh partiria com o peito sufocado... E toda Varanasi, de tanta santidade, morreria. E toda vida no Ganges não mais existiria. Pois aqui dentro a angústia é tanta, que vida nenhuma habitaria às margens do rio que nasce em meu âmago. E seria assim que, em sal e cinzas, eu encontraria meu fim às margens do Oceano Índico, afogado em mim mesmo...
Afogado no meu próprio Rio Ganges...
L.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Carta 028
De joelhos, me prostro perante deus algum;
Atrás de mim e acima de mim, o vazio.
À frente, abaixo, o vazio.
E dentro de mim, o vazio.
Minha fronte sangra. Meus olhos não enxergam.
O vazio fora de foco não me diz nada.
E o nada me diz muito.
E muito nunca é o suficiente.
Meu peito não respira. Meu coração não bate.
Meu espírito é impávido.
Meu espírito é imbatível.
Uma inabalável muralha de desilusões.
Minhas roupas são o vento.
Meus sentimentos são como o vento.
Nu, cego e frio, eu sou como o vento.
Mudo e implacável, eu sou tempestade.
Imóvel, eu sou rocha inquebrável.
Perpétuo, sou um monólito solitário.
Minhas mãos são a terra,
Minh'alma, barro.
Atrás de mim e acima de mim, o vazio.
À frente, abaixo, o vazio.
E dentro de mim, o vazio.
Minha fronte sangra. Meus olhos não enxergam.
O vazio fora de foco não me diz nada.
E o nada me diz muito.
E muito nunca é o suficiente.
Meu peito não respira. Meu coração não bate.
Meu espírito é impávido.
Meu espírito é imbatível.
Uma inabalável muralha de desilusões.
Minhas roupas são o vento.
Meus sentimentos são como o vento.
Nu, cego e frio, eu sou como o vento.
Mudo e implacável, eu sou tempestade.
Imóvel, eu sou rocha inquebrável.
Perpétuo, sou um monólito solitário.
Minhas mãos são a terra,
Minh'alma, barro.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Carta 027
Evelyn,
O que dizer? Como posso não ser tendencioso após os acontecimentos recentes?
Tudo passa na minha mente e se repete como um filme. Ou uma peça de teatro. Ou um trecho de um livro. E eu quero reler esse livro mil vezes, e mil vezes mais cada dia. Porque tanta coisa deu errada do lado de cá nos últimos meses, e ainda assim, tanta coisa deu certa de maneiras que eu sequer imaginaria.
E, quando eu pensei que você fosse sumir, você não sumiu. E, quando eu pensei em partir, eu não o fiz. E foi por esforço mútuo, não?
Afinal de contas, não é amor isso que sentimos um pelo outro? Ambos sabemos que isso é amor de verdade. Amor gravado na carne, cravado no fundo do peito. Amor esse que eu sei que também arde dentro de ti. E nós podíamos estar em qualquer lugar, mas escolhemos estar juntos aquela noite. Nós podíamos estar separados, mas decidimos, sobretudo, estar juntos. E nada nesse mundo poderia ser tão bom quanto estar contigo naquela noite. Nada poderia ser tão bom quanto ver o seu sorriso, e os fogos refletidos em seus olhos.
E alguns cigarros, algumas cervejas e alguns beijos roubados depois... Evelyn, o que me resta? Um sorriso cravado no rosto, acima de tudo.
Afinal de contas, minha querida Evelyn, se fosse preciso, eu iria até o inferno te buscar. Por que você me faz bem como ninguém mais faz.
O que dizer? Como posso não ser tendencioso após os acontecimentos recentes?
Tudo passa na minha mente e se repete como um filme. Ou uma peça de teatro. Ou um trecho de um livro. E eu quero reler esse livro mil vezes, e mil vezes mais cada dia. Porque tanta coisa deu errada do lado de cá nos últimos meses, e ainda assim, tanta coisa deu certa de maneiras que eu sequer imaginaria.
E, quando eu pensei que você fosse sumir, você não sumiu. E, quando eu pensei em partir, eu não o fiz. E foi por esforço mútuo, não?
Afinal de contas, não é amor isso que sentimos um pelo outro? Ambos sabemos que isso é amor de verdade. Amor gravado na carne, cravado no fundo do peito. Amor esse que eu sei que também arde dentro de ti. E nós podíamos estar em qualquer lugar, mas escolhemos estar juntos aquela noite. Nós podíamos estar separados, mas decidimos, sobretudo, estar juntos. E nada nesse mundo poderia ser tão bom quanto estar contigo naquela noite. Nada poderia ser tão bom quanto ver o seu sorriso, e os fogos refletidos em seus olhos.
E alguns cigarros, algumas cervejas e alguns beijos roubados depois... Evelyn, o que me resta? Um sorriso cravado no rosto, acima de tudo.
Afinal de contas, minha querida Evelyn, se fosse preciso, eu iria até o inferno te buscar. Por que você me faz bem como ninguém mais faz.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Ensaio sobre uma epifania num quarto de hospedaria durante a madrugada de um sábado chuvoso
Ela o encontrou sentado na poltrona da sala, fitando o vazio com aquele olhar que já lhe era de costume. Um olhar cansado, perdido, desolado... triste. O livro aberto na mão era apenas uma desculpa para se sentar em silêncio, um meio de enganar a quem o visse de forma a pensar que estava lendo, quando na verdade estava apenas se afundando em suas quimeras e seus devaneios - Muito embora não houvesse a quem enganar, visto que eles eram os únicos no recinto, e ela já sabia que as páginas que ele tanto encarava não lhe diziam nada que já não soubesse.
Ela deu um passo curto em sua direção. Atrás das portas de madeira, a chuva caia pesada. O estalar das chamas que se morriam na lareira era sufocado pelo som das águas que afogavam a cidade e martelavam as janelas. Por um momento, ela pensou ter visto uma lágrima correndo seu rosto, mas não pôde ter certeza. Ela nunca soube se fizera algum barulho ou se ele pressentira sua presença no ar através de algum sexto sentido que há muito nossa biologia abandonara. De súbito, ele fechou o livro e respirou fundo. Virou-se, fitando-a direto nos olhos, com o olhar pesado, porém decidido. Sua silhueta era desenhada pela luz avermelhada das brasas, que refletia nas hastes de seus óculos e nos fio de seu cabelo e de seu bigode, e a escuridão que o abraçava acolhedoramente parecia viva, como que se o abraçasse e o aquecesse enquanto estivera sozinho. Como se seus anseios e sua melancolia tivessem decidido tomar forma visível ao olho, e essa forma era a treva sufocante, densa...
Ficaram se encarando em silêncio por alguns segundos ou alguns anos - ela não saberia dizer. E, antes mesmo que ela pudesse perguntar, ele respondeu com uma calma que não era do mundo humano, com um desespero nos olhos que não era do mundo humano:
- Eu acho que sei o que devo fazer, minha querida...
- E o que você pretende fazer...?
- Ah, você verá, Evelyn...! Você verá...
Ela deu um passo curto em sua direção. Atrás das portas de madeira, a chuva caia pesada. O estalar das chamas que se morriam na lareira era sufocado pelo som das águas que afogavam a cidade e martelavam as janelas. Por um momento, ela pensou ter visto uma lágrima correndo seu rosto, mas não pôde ter certeza. Ela nunca soube se fizera algum barulho ou se ele pressentira sua presença no ar através de algum sexto sentido que há muito nossa biologia abandonara. De súbito, ele fechou o livro e respirou fundo. Virou-se, fitando-a direto nos olhos, com o olhar pesado, porém decidido. Sua silhueta era desenhada pela luz avermelhada das brasas, que refletia nas hastes de seus óculos e nos fio de seu cabelo e de seu bigode, e a escuridão que o abraçava acolhedoramente parecia viva, como que se o abraçasse e o aquecesse enquanto estivera sozinho. Como se seus anseios e sua melancolia tivessem decidido tomar forma visível ao olho, e essa forma era a treva sufocante, densa...
Ficaram se encarando em silêncio por alguns segundos ou alguns anos - ela não saberia dizer. E, antes mesmo que ela pudesse perguntar, ele respondeu com uma calma que não era do mundo humano, com um desespero nos olhos que não era do mundo humano:
- Eu acho que sei o que devo fazer, minha querida...
- E o que você pretende fazer...?
- Ah, você verá, Evelyn...! Você verá...
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