Ela o encontrou sentado na poltrona da sala, fitando o vazio com aquele olhar que já lhe era de costume. Um olhar cansado, perdido, desolado... triste. O livro aberto na mão era apenas uma desculpa para se sentar em silêncio, um meio de enganar a quem o visse de forma a pensar que estava lendo, quando na verdade estava apenas se afundando em suas quimeras e seus devaneios - Muito embora não houvesse a quem enganar, visto que eles eram os únicos no recinto, e ela já sabia que as páginas que ele tanto encarava não lhe diziam nada que já não soubesse.
Ela deu um passo curto em sua direção. Atrás das portas de madeira, a chuva caia pesada. O estalar das chamas que se morriam na lareira era sufocado pelo som das águas que afogavam a cidade e martelavam as janelas. Por um momento, ela pensou ter visto uma lágrima correndo seu rosto, mas não pôde ter certeza. Ela nunca soube se fizera algum barulho ou se ele pressentira sua presença no ar através de algum sexto sentido que há muito nossa biologia abandonara. De súbito, ele fechou o livro e respirou fundo. Virou-se, fitando-a direto nos olhos, com o olhar pesado, porém decidido. Sua silhueta era desenhada pela luz avermelhada das brasas, que refletia nas hastes de seus óculos e nos fio de seu cabelo e de seu bigode, e a escuridão que o abraçava acolhedoramente parecia viva, como que se o abraçasse e o aquecesse enquanto estivera sozinho. Como se seus anseios e sua melancolia tivessem decidido tomar forma visível ao olho, e essa forma era a treva sufocante, densa...
Ficaram se encarando em silêncio por alguns segundos ou alguns anos - ela não saberia dizer. E, antes mesmo que ela pudesse perguntar, ele respondeu com uma calma que não era do mundo humano, com um desespero nos olhos que não era do mundo humano:
- Eu acho que sei o que devo fazer, minha querida...
- E o que você pretende fazer...?
- Ah, você verá, Evelyn...! Você verá...
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