sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Carta 048

Os soldados mordem a cápsula embebida em gordura de porco e derramam a pólvora no cano.
Eu não estou como eu imaginei que estaria: com o peito estufado e olhar impávido encarando o fogo dos canhões que me alvejam.
Não.
Eu estou abatido. curvado sobre mim mesmo, apoiando minhas mãos em minhas coxas.
Sinto minhas lágrimas escorrendo aos montes. Se essas armas não dispararem logo, sinto que meu corpo se tornará inteiro água e sal e eu serei absorvido pela terra antes que o sinal de "fogo" seja dado.
Meu nariz sangra. Minha fronte sangra. Em minhas mãos, sangue. Sinto meu sangue quente fugindo de mim mesmo. Sinto frio.
À minha volta, vejo apenas cinzas. Há pouco, eu ainda tinha alguma esperança.
Há pouco, eu estava firme em meu palácio de marfim. 
Caíram muros e pilastras, e eu sozinho sustentei meu palácio com a força de minhas mãos.
Eu, sozinho.
Sempre sozinho.
Até o momento derradeiro em que aquela maldita ave passou por mim, e então eu soube.
Enquanto suas asas plainavam rumo aos céus, eu senti meu coração bater mais forte. Senti meu estômago se revirar e minha espinha congelar. Eu sabia que como a andorinha que voava para longe, você estava também partindo. E eu então desisti. Eu então me entreguei.
A última pilastra que sustentava tudo que eu era ruiu,e, com ela, eu ruí.
Eu sabia que nossos passos não iam mais se cruzar.
Eu sabia que eu não ia mais ouvir sua doce risada a preencher minha vida.
Nem seu toque. Nem seu cheiro.
Eu sabia que você, a partir daquele derradeiro momento, seria parte apenas do meu passado.
Dada a incerteza do futuro, eu aposto sempre no mais provável. E as probabilidades dizem que sim, esse é o nosso fim. Antes mesmo do nosso começo.
De joelhos, deixei que me arrastassem.
Imóvel, deixei que me linchassem.
Mudo, deixei que me humilhassem.
Eles engatilham agora suas armas. Treze homens me olham. Encaro-os um a um.
Quero que vejam o vazio inquieto que há por detrás de meus olhos.
Quero que saibam como é frio aqui dentro.
Tento me endireitar, mas não consigo.
Dor.
Olho para baixo novamente. Entre meus pés, um rio de lágrimas e sangue.
Sou o Colosso de Rodes prestes a cair.
Minha visão fica turva. Minha audição se torna abafada.
A qualquer momento agora eu irei partir, Evelyn.
Eu irei partir, talvez para sempre.
Talvez nunca mais nos vejamos.
Eu irei partir, e não em busca de mim mesmo ou de você desta vez.
Dessa vez, eu simplesmente irei partir.
E vou levar comigo toda dor e saudade que o mundo tem. Monopolizei a melancolia, e despirei o mundo de toda tristeza quando me for.
A qualquer momento agora eles irão puxar o gatilho, Evelyn.
E quando isso acontecer, eu cairei de joelhos, pronto para me afogar em meu próprio mar de sangue e sal.
Pronto para afundar com toda angústia e com todo desalento que atei a meus pés nos últimos dias de minha breve passagem por aqui.
A qualquer momento as armas irão disparar contra meu peito, Evelyn.
E quando eu cair de joelhos, com a consciência desvanecendo, eu lembrarei de você.
E em meu último suspiro, sussurrarei seu nome...

Sempre você, Evelyn...

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