segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Carta 047

   A cada dia que passa, evapora-se um pouco mais da minha escassa sanidade.
   Estou sufocando em pó e fumaça. Eu corro de cidade em cidade durante a madrugada procurando algo que eu nem sei o que é. São seis da manhã e eu estou com os pés na areia fria do litoral fitando o mar gelado. Eu sinto o vento cortante de inverno no meu rosto...

   Faz tempo que eu não tenho nenhuma notícia sua. E eu penso em você todo dia pela manhã e pela noite.
   Eu me pergunto como anda sua vida, o que você tem feito... Eu sinto sua falta, e fico construindo cenários fantasiosos em minha cabeça onde nós nos encontramos. Se eu me visse, certamente me acharia patético.
   E você deve achar algo assim também. Seu recente sumiço me fez questionar se seus sumiços se dão por acaso do destino ou por opção. E eu, imerso em meu poder de julgamento comprometido por um bom punhado de dores e uma depressão crônica que vem me corroendo nos últimos meses, acredito que essa distância crescendo entre nós é de seu agrado. Talvez não de seu desejo de forma ativa, mas de seu agrado...

   É o segundo dia afastado de minha casa. Eu pensei em rumar para o sul para te ver. Ou para o norte. Eu já nem sei mais onde estou. Eu mal sinto meus pés na areia fria. Eu sinto a umidade do ar e o sal da água sobre meu peito nu enquanto caminho pela praia. Está tão frio que meu coração até parece quente. Está tão frio que até parece que ainda há algum calor em mim...

...Talvez eu devesse parar de lutar. Talvez eu devesse simplesmente deixar você seguir seu caminho agora. Ignorar a dor que explode dentro de meu peito quando penso em te deixar partir para sempre. Ignorar as lágrimas que me afogam de noite quando penso em te perder para sempre. Ignorar tudo que sinto por você. E simplesmente sumir também...

...Meu ponto é que eu não caibo aqui. Não apenas nessa cidade, mas em todo esse modelo de sociedade. Aqui não é meu lugar. Eu simplesmente não me encaixo. E eu tento de todas as formas encontrar um buraco, um bueiro ou uma toca para me enfiar e conseguir ser feliz em meio a toda essa hipocrisia e toda essa aleatoriedade sem sentido que não a leva a lugar nenhum e que norteia todos ao meu redor.
   E eu consigo ser feliz quando estou ao seu lado. Mas eu não estou ao seu lado. E, aparentemente, não vou estar. Pois se não há lugar nessa cidade para mim, nem nessa sociedade, aparentemente não há lugar para mim também no seu mundo.

   Talvez eu devesse simplesmente ir embora. E deixar tudo seguir seu curso, Evelyn...

L.

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