domingo, 19 de maio de 2013

Carta 038

Evelyn, minha querida e agora distante Evelyn...

   Meu peito arde e meu coração bate com dificuldade sob toda a pressão que sobre ele se deposita. Meus ventrículos bombeiam sangue a temperaturas escaldantes. Eu sou uma bomba de fissão atômica prestes a explodir. Glóbulos e plaquetas no lugar de plutônio e urânio. Adrenalina no lugar de nêutrons.
   Meus pés, pesadas botas de um mergulhador dentro de um escafandro, subitamente tornam-se leves e são  capazes de andar sobre a água quando te vejo.
   Meus olhos, globos de vidro inertes, quando à sua luz, marejam e deixam escorrer de sua fonte as águas que bem poderiam correr rumo ao Mar Morto.
   Sinto a revolução de todas as moléculas de meu âmago. Ouço o som de minhas sinapses movidas à vapor.
   É a sua falta, Evelyn. A sua falta que me fará explodir e levar comigo uma Nagasaki inteira e meia Hiroshima. É a dor de não ter você aqui comigo que vai me fazer chover chuva tóxica sobre as plantações de Pripyat. É minha ansiedade toda que vai fazer o Exército Vermelho lançar sua Bomba H contra o ocidente. Meu nervosismo, que invade a Baía dos Porcos para depois ser rechaçado com a força de mil guerrilheiros.

   Evelyn, o que sinto, essa vontade de te tocar, beijar. Sentir teu calor, sentir teu cheiro, é agora uma necessidade biológica.
   Encontro-me absorto em memórias que escorrem sob cachoeiras perdidas em uma ilha paradisíaca. Memórias que vagam pelos centros de cidades que vibram ao som de mil violas e violinos. Memórias que velejam sobre o mar, tal qual um rei ou um príncipe. Memórias que me fazem perder o ar. Memórias que me fazem querer voar de volta para ti tal qual uma gaivota perdida.
   Memórias que fazem meu sangue ferver de paixão e meu coração bater mais rápido. Pronto para detonar. Pronto para o Inverno Nuclear...

...E então, seríamos só nós dois, numa ilha deserta, sob a neve cinza, ao pé da serra ouvindo o mar.
...Só eu e você.


L.

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