quarta-feira, 22 de maio de 2013

Carta 039

Evelyn,

Faz mais de uma semana que peregrino perdido.
Mais de uma semana que caminho sem saber para onde.
Outro dia, outra cidade.
Vivo de caronas. Meu alimento é a luz do sol. Meu teto, se não o teto empoeirado e sujo da carroceria de um caminhão velho ou o teto sujo e caindo aos pedaços de um celeiro abandonado, é o teto limpo e estrelado da noite. Meus pés são minhas solas de sapato já gastas ou os pneus de borracha sobre o asfalto quente de algum viajante perdido.
Levo comigo só o essencial: um caderno para lhe escrever. Uma mochila com o pouco de roupas que consegui reunir. Minha mente confusa. Meu olhar perdido. Minha alma condenada.
Por mais que, por vezes, meu corpo pareça estar à beira de um colapso, minha alma cada vez mais se fortalece. Cada vez que minhas pernas falham e eu vou ao chão sob o sol escaldante que divide a fronteira de dois estados, sinto minha alma engrandecendo. Sinto que estou moldando meu espírito às custas de meu próprio corpo. Um Davi feito de sangue e suor. Vênus de Milo feita de dor e sacrifício. Minha Magnum Opus é minha jornada em busca de mim mesmo, rumo a lugar nenhum.
E eu não temo o frio da noite.
Eu não temo o calor que castiga, nem a solidão que me afoga.
Não temo a escuridão quase palpável que se deita comigo. Não temo não voltar.
Mas, só de pensar que talvez eu possa nunca mais te reencontrar, meu estômago dá um nó e meu coração pára de bater por um segundo.
Por vezes meus pés ameaçaram dar meia-volta. Por vezes, eu receei continuar.
Não que eu não pretenda voltar. Mas ainda não é hora...

E, se por acaso, minha jornada lhe preocupa, lembre-se: eu jamais ando só. Pois se em minha mente impávida eu caminho solitário em busca de mim mesmo, em meu coração eu trago sempre seus beijos e abraços.
Não importa aonde eu vá, Evelyn, um pedaço seu sempre estará comigo.
E, se de noite ao se deitar você sentir alguma centeia de melancolia ou de tristeza, tenha certeza: é um pedaço de mim mesmo que tu carregas dentro de ti...


L.

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