Eu ando muito ausente, eu sei.
Há tempos que uma carta minha não chega a você - o que não significa que eu não as tenha escrito, com tinta ou em meus pensamentos. Mais algumas a se somar na pilha de cartas que, em meu quarto, erguem-se à altura dos meus joelhos e se inclinam para o lado, tal qual uma Torre de Pisa construída com sentimentos abstratos transformados em cartas perdidas...
Pela última vez que te vi, você me perguntou se a razão pela qual meus pés caminham perdidos era você.
Se, por acaso, era você a responsável pelo meu olhar cansado e desiludido.
Se era você a semente dessa falta de cor em mim...
...Não, Evelyn. Esse meu desespero contido, essa minha angústia disfarçada com meu olhar blasé, minha ânsia que me queima por dentro, me digere vivo... Esse ácido que verte da minha pele e que, para disfarçar, eu saio a caminhar na chuva... Nada disso é culpa sua. O ponto, Evelyn, é que eu estou, mais uma vez, perdido. Mais uma vez, e mais do que nunca agora, perdido. Perdi meu norte. Perdi meu sol. Minhas bússolas.
Videie, minha cara! Olha para mim e me diz o que você vê!
E eu te digo o que eu vejo daqui de cima de meu navio: Um horizonte desfocado, depois do qual eu não sei o que me espera; Velas que ululam ao vento preguiçoso; Vejo corpos no mar, Evelyn! Todos os meus marujos me abandonaram. Todos os seus corpos afogados à minha volta; Eu não possuo mais um imponente navio - eu possuo um coffinship! Vejo as barbatanas de mil tubarões que seguem o rastro mórbido da minha passagem n'oceano. Vejo o convés vazio - ele bem que poderia ser meu próprio coração; vejo o céu negro e sem estrelas. Eu perdi meu norte, e navego sem bússolas.
Eu navego agora, Evelyn, sozinho e à revelia.
Que os deuses saibam melhor do que eu.
Ahoy, minha cara. Pois quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor...
L.
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