segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Carta 029

Evelyn,

   Me sinto como um marinheiro que parte só, num barco rumo ao desconhecido para além do horizonte. Deixando para trás tudo que lhe faz bem, e tudo que lhe faz mal, e tudo que ama e já amou. Solitário, o único caminho a seguir é à frente. Rumo ao eterno vazio da noite. Sozinho, lutando contra os ventos e as tempestades. Rendido à própria sorte. Indefeso, apenas esperando com o arpão em mãos pelo Leviatã que há de lhe virar o barco e lhe tragar ao leito d'oceano.
   Às vezes acho que tudo isso é demais, Evelyn, e acho que esse oceano todo que me afoga sou eu mesmo. É possível morrer afogado em si mesmo?
   E às vezes eu acho que eu poderia chorar um Ganges inteiro. Abençoar toda Varanasi com o sal de minha tristeza, e observar enquanto eu mesmo seria cremado em uma pira à beira do rio.
Vestes brancas e cinzas brancas.
Um brâmane exilado, abandonado, afogado em vermilion.
Um xátria armado, disposto a morrer por orgulho. Disposto a se matar por orgulho.
Um vaixá com todo um comboio de desilusões e potes cheios de nada e baús forrados com todo o sal que eu consegui filtrar de minhas próprias lágrimas.
Um shudra que se arrasta e se banha no rio profano. Que se curva à própria mediocridade.
Um pária. Sozinho e abandonado.
   E, sem querer assim, de tanta dor no rio outrora sagrado, toda Calcutá fugiria com pesar no coração, e toda Bangladesh partiria com o peito sufocado... E toda Varanasi, de tanta santidade, morreria. E toda vida no Ganges não mais existiria. Pois aqui dentro a angústia é tanta, que vida nenhuma habitaria às margens do rio que nasce em meu âmago. E seria assim que, em sal e cinzas, eu encontraria meu fim às margens do Oceano Índico, afogado em mim mesmo...
   Afogado no meu próprio Rio Ganges...

L.

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