Me sinto como um marinheiro que parte só, num barco rumo ao desconhecido para além do horizonte. Deixando para trás tudo que lhe faz bem, e tudo que lhe faz mal, e tudo que ama e já amou. Solitário, o único caminho a seguir é à frente. Rumo ao eterno vazio da noite. Sozinho, lutando contra os ventos e as tempestades. Rendido à própria sorte. Indefeso, apenas esperando com o arpão em mãos pelo Leviatã que há de lhe virar o barco e lhe tragar ao leito d'oceano.
Às vezes acho que tudo isso é demais, Evelyn, e acho que esse oceano todo que me afoga sou eu mesmo. É possível morrer afogado em si mesmo?
E às vezes eu acho que eu poderia chorar um Ganges inteiro. Abençoar toda Varanasi com o sal de minha tristeza, e observar enquanto eu mesmo seria cremado em uma pira à beira do rio.
Vestes brancas e cinzas brancas.
Um brâmane exilado, abandonado, afogado em vermilion.
Um xátria armado, disposto a morrer por orgulho. Disposto a se matar por orgulho.
Um vaixá com todo um comboio de desilusões e potes cheios de nada e baús forrados com todo o sal que eu consegui filtrar de minhas próprias lágrimas.
Um shudra que se arrasta e se banha no rio profano. Que se curva à própria mediocridade.
Um pária. Sozinho e abandonado.
E, sem querer assim, de tanta dor no rio outrora sagrado, toda Calcutá fugiria com pesar no coração, e toda Bangladesh partiria com o peito sufocado... E toda Varanasi, de tanta santidade, morreria. E toda vida no Ganges não mais existiria. Pois aqui dentro a angústia é tanta, que vida nenhuma habitaria às margens do rio que nasce em meu âmago. E seria assim que, em sal e cinzas, eu encontraria meu fim às margens do Oceano Índico, afogado em mim mesmo...
Afogado no meu próprio Rio Ganges...
L.
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