Eu espero morrer vazio de mim mesmo.
Passeio pela vida dos outros e, com ou sem permissão, semeio um pouco de mim mesmo na vida deles.
E, por onde quer que você vá, se eu por lá já passei, um pouco de mim você verá.
Seja nas palavras do velho louco sob a cachoeira,
Seja nas marcas que emolduram o espelho naquele hotel no centro de Curitiba,
Seja no breve sorriso de identificação do violonista numa ilha qualquer,
Seja o meu sotaque que já não pertence mais a lugar nenhum,
Seja na marca de pneu sobre alguma autoestrada
Ou até mesmo na memória quase apagada da senhora que mora ao lado do alambique.
Não obstante, a cada centeia de mim que eu perco para o mundo, recolho do mundo um pedaço novo de mim mesmo.
Seja a simpatia dos gitanos que conheci enquanto procurava um caminho numa estrada qualquer,
Seja as mensagens, os dizeres e as eternizadas juras de amor eterno que marcam as paredes de um hotel no litoral do Paraná,
Seja o sorriso quase pueril do vendedor de algodão-doce que conheci por simples acaso,
Sejam os gritos por liberdade e justiça que gritei e ouvi enquanto dividia as avenidas com meus mais de duzentos mil irmãos,
Ou até mesmo as intermináveis risadas que já ouvi e até hoje ecoam em minha memória, ou os rios de lágrimas que enxuguei e até compartilhei...
Seja toda essa troca justa ou não,
À despeito de toda a saudade que faz meu peito pesar,
E apesar da dor da saudade que possa vir a me assombrar,
Eu espero sim poder me semear pelo mundo e pelas pessoas pelas quais eu passar.
Espero cada vez mais de vida me preencher, e cada vez mais de mim me desfazer...
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