quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Carta 026

Evelyn,

   Eu não sei exatamente como aconteceu. Eu acordei e, ao me olhar no espelho, notei algo de diferente.
   Há algo dentro de mim dividido. Meu espírito se partiu em dois. Um pedaço de mim mesmo deseja me trair. Sinto meus ventrículos se esforçando para bombear meu sangue em direções opostas. Sinto os dois hemisférios do meu cérebro se repelirem.


   Sinto sua falta todo dia que não te vejo. Quero você comigo dia e noite. Preciso de você. Amo você.
   É com você que quero trilhar minha história sobre essa terra. É com você que quero conhecer todas as serras nubladas, todas as praias desertas, todas as cachoeiras solitárias, todas as ruínas abandonadas, todas as montanhas silenciosas e as mais barulhentas capitais, as mais agitadas cidades, as mais distantes províncias...
***
   Tenho medo de continuar assim com você. Tenho medo de nossa proximidade nos afastar. Tenho medo que a paixão ou o amor ou o que quer que seja esse sentimento entre nós mingue por conta de nosso contato.
   Quero fugir. Quero desaparecer. Com peso na consciência, com dor no coração, com lágrimas nos olhos e um nó na garganta, eu quero sumir no horizonte. Com o coração apertado, o peito sufocando, eu quero te deixar. Eu quero virar lembrança para, um dia, voltar a ser presente, voltar a ser realidade. Para quem sabe então passar de "eu" para "nós"...


Eu não sei exatamente como aconteceu. Eu acordei e não conseguia mais me olhar no espelho. Deitado, confuso, eu não sabia qual metade minha era insana - em qual metade eu era eu. Estava escuro. Dentro do meu peito, um turbilhão de sentimentos. Dentro da minha cabeça, um turbilhão de pensamentos. Caos que, derradeiramente, acaba em vazio. Eu abri os olhos e encarei a escuridão. Eu estendi meu braço para o alto em um pedido desesperado de ajuda. E eu esperei você me puxar para a superfície...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Carta 025

 Chovia forte. Eu, perdido e com frio, caminhei até a chapeleira e vesti um sobretudo de lã e coloquei uma boina esverdeada para te ver. Limpei meus óculos e girei a chave na porta. Dois estalos, a porta se abriu com um gemido e o vento acertou-me bem na face. Frio. Fechei a porta com a chave e caminhei pelo ladrilho molhado. A água escorria pelo meu rosto incessantemente. o vento levantava as abas de meu sobretudo e tentava me empurrar de volta para casa. A noite, opressora, pesava sobre mim. Ninguém queria que eu fosse até você, mas nem mesmo o tempo, nem mesmo a água, ou o fogo ou a noite me impediriam de te ver. Nem a mão de deus me puxando pelos ombros me faria parar de andar em direção a sua casa. Nem o tridente ensanguentado do diabo cravado em meu peito me faria parar de andar em direção a você.
 Eu parei em frente a sua casa. Meu coração batia forte. Eu bati à sua porta, mas você não me respondeu. Eu insisti, mas você não ouviu. Eu gritei, mas a chuva calou meu grito. Eu esperei. Eu esperei. Eu esperei, mas você não me ouviu. O vizinho, surpreso em me ver na calçada de noite debaixo de tão forte chuva, me disse que você não estava. Que você já tinha ido. Que você foi. Você foi, e eu fiquei. Sozinho.
 Eu, calado, tracei o caminho de volta para minha casa. Eu levei mais de duas horas para voltar - Mais que o dobro do que levei para ir. Eu me perdi. Eu desisti. Eu não aguentei, Evelyn. Eu vaguei sozinho debaixo da chuva, eu me sentei no meio-fio. Sozinho. Só havia eu nas ruas, só havia eu esperando o dilúvio me levar. Eu, o homem que não embarcou na Arca de Noé por opção. Por querer se afogar. Por querer me afogar. Eu, o homem que não tentou fugir de Gomorra por querer ver o fogo me consumir.
 E o que moveu meus pés de volta à minha casa, horas depois de meu colapso, foi a tola esperança de te rever. De acreditar que um dia, você voltaria. Por que sem você, não tem graça. Por que sem você, eu sou oco. Por que talvez eu precise mesmo de você. Porque nenhum abraço acolhe como o seu, Evelyn. Porque nenhum beijo é como o seu, Evelyn. Porque ninguém é como você, Evelyn...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Carta 024

Se o mundo acabasse hoje, Evelyn
Que acabasse de mãos dadas conosco.

Eu e você de mãos dadas sobre a última das pirâmides,
Com os olhares pousados n'orizonte cor-de-rosa.

Eu e você proseando e peregrinando entre as montanhas de pedra,
E nós nos perdendo sobre as cachoeiras e sob as colinas e sob as nuvens.

Nós dois passando por debaixo de pontes de concreto,
Sobre pontes de madeira, sobre todas as pontes do Condado de Madison.

Nós, de Santos ao Arpoador.
Nós, da Irlanda ao Marrocos.
Nós em Nova Iorque.
Nós em Budapeste.
Berlim.
São Petersburgo.
Praga.

Nós, juntos no fim, e para além disso...
Desde sempre, como sempre, para sempre...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Carta 023

Evelyn,

    Despi-me de minhas obrigações por alguns dias. Tracei meu caminho na areia, caminhei pelo litoral de praia em praia, relendo alguns trechos de cartas que nunca serão-lhe entregues e que foram se acumulando no fundo de minhas bagagens e de minhas memórias.
    Como um ourives empenhado em dobrar o ouro e curvar o metal, eu dobro, curvo, torço e teço minhas palavras sobre o papel, marcado com tinta e sangue e sal. Profiro palavras ao vento costeiro, na esperança de que alguma andorinha que tenha perdido o rumo as apanhe e as leve até o parapeito de tua janela, e quem sabe assim você sorriria ao saber de um amor antigo que é ainda vivo e ainda razão de viver. E quem sabe essa andorinha não tomasse de você alguma dessas suas cartas não endereçadas e trouxesse a mim, e enfim eu saberia que junto com o pássaro foi-se sua tristeza toda, tua angústia toda...? Um porta-jóias com tudo que afoga teu peito, com tudo que acinzenta seu dia. Um porta-jóias que eu cuidadosamente colocaria sobre a areia, para ser banhado pelo oceano e lavado e levado pelas águas para longe, de onde não mais te alcançaria nada que lhe fizesse mal.
    Como um ourives empenhado em dobrar o ouro e curvar o metal, eu me sento n'areia e cuidadosamente dobro em pequenos barcos de papel essas cartas todas que eu lhe fiz com meus mais sinceros sentimentos. Dobrei-lhe nos vincos e levei essas mais de três mil e duzentas cartas - uma para cada dia em que te amei - à beira da praia deserta. E enquanto as nuvens encobriam o sol pálido, eu mandei a frota navegar. Despedaçada em três mil e duzentos pedaços, eu te consignei ao Atlântico, e me sentei enquanto te observava afundar...





...E daqui de longe, do alto da serra, eu ainda consigo ver minha armada: três mil e duzentos barcos que se afundam e se despedaçam, escoltando sua dor enclausurada numa caixinha de jóias rumo ao infinito que repousa no leito do oceano...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Carta 022

Evelyn,

   Enquanto tomava meu desjejum matinal, enchi uma generosa xícara com café - forte e sem açúcar, como de costume - e abocanhei algumas fatias de pão - sem manteiga e sem sabor, como de costume.
   Não gosto de coisas que possam me tirar o foco do mundo como ele é. Eu gosto do meu café do jeito que é a vida: Amarga. A cada gole que sorvo, meus músculos faciais se contraem sutilmente, no esforço bem-sucedido de disfarçar uma careta e um franzir de testa. Assim como a cada passo mais pesado que dou, meu joelho range, e fraqueja, tentando me levar ao chão, me forçando a resistir e me esforçar para permanecer de pé. Assim como em momentos aleatórios do dia, minhas narinas dilatam e minha respiração torna-se mais profunda e pesada afim de hiperoxigenar meu sangue, tornando-o alcalino, num esforço - dessa vez mal-sucedido - de amenizar a dor advinda dessas pedras que carrego dentro de mim.
   Não quero morrer tão cedo, Evelyn, mas não quero me demorar muito nesse mundo também. Quando sorvo alguns copos a mais de uísque que no dia seguinte me atacam o estômago, não me sinto pior do que quando tomo alguns comprimidos afim de controlar alguma dor ou enfermidade. Na verdade, sinto-me até melhor quando o faço. Mais uma vez, não gosto das coisas que tentam mascarar a vida. Ela não é amena, leve e onírica como fazem parecer os analgésicos e os sedativos. Ela é visceral, pesada, opressiva. Impiedosa. Amarga como meu café. Insossa como meu pão. Vazia, como meu desjejum...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Carta 021

Para além de mim, de você...

   Para além de qualquer coisa...
      
      ...Quanto tempo ainda há?

I

É clichê, eu sei, me perguntar até quando firmarei meus passos sobre essa terra. Ou até quando você vai firmar os teus.
É clichê, mas faz-se necessário hoje.
Há três dias, estou a mais um ano vivo. Existo por mais um ano. Um ano mais velho. Um ano a menos para me preocupar...
Pergunto-me o que mais cabe à situação: se "meus parabéns" ou "meus pêsames".
Em tempos de Cruzadas e peste e praga, clausuras, catedrais românicas e invasões bárbaras, certamente um parabéns viria a caber. Mas hoje...? Não temos uma grande guerra, não temos uma grande praga. Não corremos riscos diários explícitos, não temos nossa vida ameaçada em tempo integral. Temos rotina, temos marasmo. Temos pelo que viver?

II

E, por sete infernos, a verdade é uma apenas: O mundo não é justo. Tampouco injusto. Ele apenas é.
Coisas boas acontecem a pessoas más e a pessoas boas, assim como coisas ruins acontecem com pessoas más e pessoas boas. Estamos todos jogados ao acaso. O carma é nosso ópio... A promessa de que o que fazemos, será devolvido. Egoísmo disfarçado de altruísmo.
O que faço, faço por que quero, não por esperar que um dia minhas ações ordenem o caos de forma favorável a mim mesmo.
É por isso que algumas pessoas partem cedo da vida, e algumas demoram-se a partir. Caos. É por isso que me pergunto aqui quanto tempo tenho ainda, e se tenho pelo que aqui continuar. Pelo que vale a pena viver, se fazer o bem ou o mal em nada incorre no fim das contas?

III

Vive-se uma vez apenas. Sendo assim, para que fingir que levaremos daqui algo? Riquezas, poder, status... Meus vícios são outros. Luxúria, prazer, auto destruição. Para além de qualquer coisa, o que vale: Não o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.
Nossa vida acaba minuto a minuto. Um cigarro aceso nos lábios de deus. E a cada vez que ele bate as cinzas, sentimos o peso do tempo nas nossas costas.
Não há nenhum bom motivo para fazer isso ou aquilo. Mas devemos fazer algo.
Nossa obrigação é achar algo pelo qual viver. Nossa obrigação é dar sentido a nossa efêmera existência.
Pode dar tudo certo, ou tudo errado.
Podemos estar aqui amanhã, ou não.
Então vem, senta aqui ao meu lado e deixa o mundo girar. Jamais seremos tão jovens...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Carta 020

Você foi e levou tanto com você.
E eu fiquei. E comigo, o que ficou de você?
Saudade, lembrança, esperança,
Dúvidas, sentimentos e arrependimentos...?

Você partiu e levou contigo minha felicidade, 
E levou também minha tristeza.
E eu fiquei aqui, só, nessa cidade
Só eu e toda minha saudade.

E hoje me descobri tão vazio,
Tão oco, tão devoluto...
Imane como a carcaça de um navio
esperando se desfazer no oceano, resoluto...

terça-feira, 17 de julho de 2012

Carta 018

Evelyn..

Uma partida sem um último beijo, um último abraço...
Um final sem final... Não é um final.
Não é certo.
E eu vou enlouquecer se isso tudo se acabar de um dia para o outro.
Evelyn, eu caminho agora sobre o fio da navalha.
Eu caminho na beira da sanidade - No limiar da saudade.
Você nem foi e eu já sinto sua falta.
Saudade que sangra. Saudade que afoga o peito e se vê no rosto...
Saudade essa que eu vou deixar guardada na minha mesa de cabeceira, com a qual eu me sentarei no café da manhã e levarei para a cama de noite...
...E o que eu quero não é nem que você fique. O que eu quero é só você.
E, se tudo dependesse de mim, eu me mudaria com você. Para onde você fosse. Para o norte ou para o sul, para o céu ou para o inferno, eu estaria lá contigo...


"É que eu te amo, meu mar sem fim,
Porque és o riso que passeia dentro de mim
E essa dor dentro de ti a andar sou eu."

sábado, 14 de julho de 2012

Carta 017

Evelyn,

  Tenho tido surtos de catatonismo nas últimas quarenta e oito horas, e você sabe o porquê.
  Tenho dormido pouco, ou não dormido. Tenho pensado demais, e falado de menos. Tenho tentado criar alguma linha de raciocínio no meio desse caos, tentado tirar alguma lição disso tudo... Mas eu não tenho conseguido manter uma linha de raciocínio por tempo suficiente sequer para chamá-la de linha de raciocínio.      
  Devaneios, ilusões, desilusões, lembranças...
  Minha fuga da realidade, minha admiração por você, meu egoísmo... Diabos, Evelyn... Eu acho que estou sim assustado com tudo isso.
  E há tanta coisa não dita entre nós. Tantas meias palavras e meios sorrisos. Olhares longos demais e abraços curtos demais... Algum dia poderíamos funcionar, Evelyn? Existe algum lugar onde nossos caminhos podem ser juntos...?

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Carta 016

Eu estou perdido em meio a um mar de concreto.
Náufrago no baixo centro.
Afogo-me em pó e poeira e fumaça.
Encho meus pulmões com cinzas da mesma cor que a cidade.
Cinzas da mesma cor que o céu e da mesma cor que minha alma.

Traço minha peregrinação no meio-fio,
A passo e compasso do canto dos excluídos.
Caminho entre bêbados e drogados e prostitutas e artistas;
Silenciosos como o frio eles passam,
Silencioso como o próprio vento eu passo.

Estou fadado a afogar-me neste mar de concreto?
Com os pulmões cheios de piche,
Os órgãos petrificados como meu olhar solene,
Para sempre agora fitando o vazio?

Como um obelisco cravado no coração da cidade,
Minha silhueta umbrátil zelaria pelos vagabundos
e cuidaria e guiaria todos os expatriados inoficiais,
Órfãos de direito e de valor. De razão e quiçá de emoção.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Carta 015

   Eu estava sentado sobre o muro que divide os dois hemisférios do meu cérebro, encarando o horizonte com meu olhar perdido de quem há muito perdera o rumo, mas continuara andando. Duncan estava à minha frente, apoiado em uma árvore, enrolando um cigarro.
   "A felicidade de uns é a desgraça de outros. O ceú de uns, o inferno de outros. Em suma, todos buscam alguma coisa para se sentirem completos - Pressupomos sempre que essa coisa é um algo que traz felicidade, mas, para algumas pessoas, o que as completa é o vazio, a tristeza, a solitude..." Ele lançou o olhar sobre mim e continuou: "...Você é uma pessoa que busca a tristeza. Você deveria parar com isso e procurar outras coisas..."
   E ele continuou a enrolar o cigarro. E eu continuei fitando o nada. E talvez Duncan esteja certo. Talvez não.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Carta 014

...Ou, "O Ensaio de Uma Despedida".

   Por quê, Evelyn, é tão difícil nossos destinos se manterem paralelos?
   Estamos distantes um do outro, de novo. Estamos fechando o ciclo, Evelyn. Aquela peculiaridade entre nós dois, aquela sucessão de coincidências, aqueles encontros extremamente improváveis em momentos completamente randômicos. De tempos em tempos, aparecemos um na vida do outro para, eventualmente, como o frio de junho, irmos embora solenemente um da vida do outro. Mas não dessa vez. Não há solenidade aqui. Não há calma. Não há serenidade.
   Escreveu uma vez Tolkien que "você pode encontrar as coisas que perdeu, mas nunca as que abandonou.". E eu não sinto que estamos nos perdendo um do outro. Eu estou provavelmente enganado - E espero mesmo estar - quando penso que talvez nosso próximo adeus será nosso último adeus, e nosso próximo abraço será minha última lembrança junto de ti.
   Quero que saiba também que algumas decisões que tomei nos últimos cinco ou seis meses - E até algumas mais importantes ainda que tomei nos últimos sete ou oito dias - são resultado direto de nosso reencontro. Aparentemente, eu funciono melhor com você do meu lado, e talvez seja por isso que precisemos nos afastar de tempos em tempos. Por quê viver tendo-te por perto, tendo-te ao meu alcance, seria demasiado bom...  E talvez algumas pessoas não mereçam tamanha ventura.
   Quem sabe se vamos nos reencontrar de novo? Daqui uns meses, ou uns anos...? Aqui, ou numa das doze capitais que pretendíamos visitar juntos... Quem sabe?

Em suma, Evelyn...


Sentirei saudades suas. De verdade.
L.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Carta 013

...E naquela esquina, entre a Augusta e a Meia-Noite, com um copo de cerveja em mãos, debaixo do sereno e respirando o ar frio que é de costume naquela época do ano, eu indaguei uma questão que iria me perseguir por semanas, e para a qual ainda tenho dúvidas quanto a reposta: Em um período de uma única vida, quantas vezes morremos? E, mais do que isso: Quantas vezes um homem suporta morrer no espaço de uma só vida...?
...E eu? Quantas vezes já não morri, e quantas ainda hei de morrer? Quantas vezes mais suportarei ressuscitar?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Carta 012

...Sorvi outro gole de café frio, pensando naquelas palavras que ele me dissera dias atrás: "Tantos buscam o sentido da vida, e vivem desiludidos por não o encontrarem. Eu prefiro apenas viver e não me preocupar ou me entorpecer buscando respostas para perguntas que não tem respostas."
Ele era um tolo. Um tolo prático, mas ainda assim um tolo.
E tolos são todos os outros que não enxergam que no final das contas, não há mesmo um propósito absoluto da vida - O grande propósito da vida, no final de contas, é dar algum propósito à vida.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Carta 011


Raios de sol se perdem na neblina,
E rápido como o entardecer
Teu reflexo desaparece da minha retina.
Tudo bem, se é assim que tem que ser...

terça-feira, 8 de maio de 2012

Carta 010

Eu vejo você indo embora...
Eu te vejo, de novo, de costas para mim.
Eu vejo sua silhueta diminuindo contra o sol.

Eu não vejo mais seu sorriso,
Eu não sinto mais seu cheiro,
Nem o toque de suas mãos...

Eu não ouço mais sua voz.
Minuto a minuto, passo a passo
Estamos cada vez mais longe um do outro.

É você que se distancia,
Sou eu que me esquivo,
Ou nossos caminhos, mais uma vez, se repelem?

E essa sombra a meu lado?
E essa cicatriz em meu passado?
E esse vazio em minha vida...?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Carta 009

Evelyn, eu não creio.

    Simples assim: Eu não creio. Ateísmo destilado em ceticismo. Niilismo em sua mais pura forma. Para mim não há deus, não há diabo nem pecado. Sem espíritos, sem alma, sem karma, sem lei do retorno. Sem certo e sem errado e, sobretudo, sem verdades.
    Onde crentes vêem a mão de Deus orquestrando encontros improváveis, eu vejo uma equação caótica se resolvendo. Onde os outros vêem coincidências que devem significar alguma coisa, eu vejo coincidências apenas. Não há uma mão invisível guiando nossos caminhos, Evelyn. Não há uma força inteligente e sobrenatural que nos aproxima. Não há um plano divino para nós dois. Não há um deus que quer nos ver juntos. Oposto disso tudo, há uma poesia incontestável que é construída de forma bizarra entre nós dois. Uma espécie de (in)consciência coletiva ou alguma sorte de Efeito Borboleta que se iniciou setecentos anos atrás com o bater das asas de um pássaro perdido que hoje faz com que sempre , em algum momento, vamos convergir um pro outro. Uma probabilidade matemática que insiste em se concretizar entre eu e você.
    Entre sete bilhões de pessoas, você. Entre onze milhões de vizinhos, você. Sempre você, Evelyn. Sempre você.

L.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Carta 008

Como dois espectros perdidos, caminhamos juntos pela noite.
Becos, ruas e ruelas são nosso tapete vermelho
Luas e estrelas são nossa luz.
Cigarros e bebidas, nossa força motriz.

Seu nariz fura o vento como uma nau em alto-mar;
Seus passos e os meus passos marcam o cimento fresco;
Nossas sombras perdidas no silêncio do asfalto e da madrugada;
Sua pele alva, seu sorriso único, seu olhar confuso...

A um braço de distância, a um metro de distância...
Eu anseio pelo seu toque -- Eu anseio por te tocar.
A menos de um palmo de distância, menos da distância de um suspirar...
Eu espero seu toque - Eu roubo-lhe um beijo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Carta 007

Minha querida Evelyn,

Dois passos são o que separam-nos um do outro.
Duas pessoas são o que nos separam um do outro.
Duas luas, dois sóis.
Dois...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Carta 006

Minha querida, querida Evelyn...

  ...Encontro-me em Crise Existencial profunda. Crise essa que dura já 14 semanas. Crise essa que eu cultivo e amo como uma mãe ama o feto não parido. E temo que tal Crise não será passageira, leviana, sucinta, irrelevante ou pouco importante. Pelo contrário, sinto que ela é tão relevante, importante, impactante a ponto de ser hostil, bruta a ponto de fazer sangrar, fria e sincera, que sinto a necessidade de escrevê-la com a primeira letra em maiúsculo, como se fosse digna de título de divindade.
  Prevejo-a mudar intrinsecamente minhas faculdades mentais, meu modo de vida e os pilares sobre os quais apóio meus prospectos morais e éticos. Prevejo-a se aprofundar em meados de julho. Prevejo que o julho deste ano será mais frio que o usual, mais visceral que o usual. Na verdade, prevejo que este ano será mais frio, visceral, hostil, relevante... Uma catarse. Purificação através da dor, da arte, do sacro-ofício, do pecado, da heresia, da violência, do sangue e da carne e do espírito.
  Vou escalar o prédio mais alto da cidade, estender meus braços ao infinito que se projeta acima e abaixo do meu corpo, e deixar que a gravidade me acorde. Farei parte do asfalto, regarei a planta que racha o concreto com meu sangue, e viverei para sempre nas entranhas desta cidade que é moribunda enquanto o sol é vivo, e viva quando o sol renuncia.

L.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Carta 005

   Fazem algumas poucas horas que saí da ala de pronto-atendimento médico. Passei os últimos dois ou três dias à base de soro, deitado e em estado de semi-consciência. Nem morto, nem vivo. É o tipo de coisa que acontece quando você une gastrite, álcool, alguns remédios além do esperado e uma eventual intoxicação. Meu humor está pior que o de costume, como é de se esperar de alguém enfermo. Vou passar os próximos dias restringindo minha alimentação a uma porção de pratos insossos e uma quantidade ridícula de remédios para tentar controlar os sintomas de uma "doença" cuja cura inexiste...
   ...O que me faz escrever esta carta no entanto é o fato de que, enquanto eu jazia em meu leito hospitalar, em meio a um possível delírio, eu vi seu rosto. Eu ouvi sua voz ecoar, distante...

   ...Era você mesmo, ou era um meio patético ao qual minha cabeça se submeteu para tentar desviar-me a atenção do ácido que me escalava as entranhas, ou era apenas fruto dos vários químicos que me foram administrados enquanto eu me encontrava em estado de semi-paralisia, contendo a ânsia que escapava-me à boca?

sábado, 7 de abril de 2012

Carta 004

Minha querida Evelyn,

 Ontem saí com dois companheiros em uma peculiar peregrinação. Rumamos cedo da noite a uma comemoração espontânea e aleatória. Regamos nossos espíritos inflamados pela música com bebidas oriundas do Leste Europeu feitas à base de trigo. Entorpecemos nossos cérebros seguindo minuciosamente os compassos de toda uma concomitância musical que se derramava entre os presentes. Honrando minhas origens que remontam à Europa, e de lá à Índia, deixei-me levar pelos sustenidos e deixei-me afogar em bemóis; E seria inevitável que não me viesse à mente você em momento algum.
 Eu me retirei da taberna em qualquer momento entre a embriaguez e a sobriedade, e despenquei numa cama não muito antes do sol se levantar. Eu só viria a acordar dali a algumas horas, tentando primeiro adivinhar onde estaria, para depois tentar me lembrar dos acontecimentos da noite anterior - E, depois, levaria algumas horas mais para assimilar uma possível epifania que há de florescer neste meio-tempo.

L. 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Carta 003

 Meus olhos pesam. Minha consciência luta contra mim: Ela me quer distante. Minha sanidade encontra-se amansada. percepções sensoriais são elevadas. Eu sinto até o calor do sangue que corre sob minha pele, percorrendo minhas artérias, pulsando conforme meus ventrílocos ordenam. Eu ouço o sangue que corre no interior do meu crânio. Meus olhos enxergam d'outra forma - nem certa nem errada, apenas de outro jeito. O tempo desacelera, preguiçoso...

                                 ...Como uma brisa que passa rápido, deixando apenas um rastro de frio atrás de si, tudo passou. Nada fica, senão um certo ar contemplativo, uma vontade de se diluir e voltar a ser parte de um todo como nos tempos pré-Big-bang. De derreter e escorrer pelas páginas de um livro de Asimov...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Carta 002

    Às vezes sinto-me compelido a sair. Juntar uns poucos pertences, juntar um punhado de dinheiro - o necessário para subsistência apenas -  e desdobrar-me para fora não só de  meu lar ou de minha cidade, mas dessa vida. Não respirar apenas novos ares e ver novas paisagens apenas, mas de respirar e ver como vêem os recém nascidos. Sentir a luminosidade cegando meus olhos que jamais enxergaram, sentir meus pulmões se expandindo dolorosamente com o ar frio de julho, desesperados tentando tragar uma porção de oxigênio pela primeira vez na vida, como se fosse essa a última vez na vida. Sentir o vento cortar-me a carne como cortam a carne as reluzentes facas de um açougue.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Carta 001

Minha querida Evelyn,

Depois de muito calar-me, e de muito me sentar em silêncio no escuro contemplando as sombras que preenchem o vácuo de meu leito, chego mais uma vez - e mais de uma vez - à conclusão de que a situação a qual chegamos é, mais uma vez, insustentável.
Sinto-me compelido a fazer desta carta a mais breve possível, e hei de terminá-la citando Augusto de Almeida:

"Que me importa te perder se eu nada tenho?
Que me importa te ganhar se eu não sou teu?
Porque és tão divina e eu sou ateu..."


 L.