quinta-feira, 5 de julho de 2012

Carta 016

Eu estou perdido em meio a um mar de concreto.
Náufrago no baixo centro.
Afogo-me em pó e poeira e fumaça.
Encho meus pulmões com cinzas da mesma cor que a cidade.
Cinzas da mesma cor que o céu e da mesma cor que minha alma.

Traço minha peregrinação no meio-fio,
A passo e compasso do canto dos excluídos.
Caminho entre bêbados e drogados e prostitutas e artistas;
Silenciosos como o frio eles passam,
Silencioso como o próprio vento eu passo.

Estou fadado a afogar-me neste mar de concreto?
Com os pulmões cheios de piche,
Os órgãos petrificados como meu olhar solene,
Para sempre agora fitando o vazio?

Como um obelisco cravado no coração da cidade,
Minha silhueta umbrátil zelaria pelos vagabundos
e cuidaria e guiaria todos os expatriados inoficiais,
Órfãos de direito e de valor. De razão e quiçá de emoção.

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