Evelyn,
Enquanto tomava meu desjejum matinal, enchi uma generosa xícara com café - forte e sem açúcar, como de costume - e abocanhei algumas fatias de pão - sem manteiga e sem sabor, como de costume.
Não gosto de coisas que possam me tirar o foco do mundo como ele é. Eu gosto do meu café do jeito que é a vida: Amarga. A cada gole que sorvo, meus músculos faciais se contraem sutilmente, no esforço bem-sucedido de disfarçar uma careta e um franzir de testa. Assim como a cada passo mais pesado que dou, meu joelho range, e fraqueja, tentando me levar ao chão, me forçando a resistir e me esforçar para permanecer de pé. Assim como em momentos aleatórios do dia, minhas narinas dilatam e minha respiração torna-se mais profunda e pesada afim de hiperoxigenar meu sangue, tornando-o alcalino, num esforço - dessa vez mal-sucedido - de amenizar a dor advinda dessas pedras que carrego dentro de mim.
Não quero morrer tão cedo, Evelyn, mas não quero me demorar muito nesse mundo também. Quando sorvo alguns copos a mais de uísque que no dia seguinte me atacam o estômago, não me sinto pior do que quando tomo alguns comprimidos afim de controlar alguma dor ou enfermidade. Na verdade, sinto-me até melhor quando o faço. Mais uma vez, não gosto das coisas que tentam mascarar a vida. Ela não é amena, leve e onírica como fazem parecer os analgésicos e os sedativos. Ela é visceral, pesada, opressiva. Impiedosa. Amarga como meu café. Insossa como meu pão. Vazia, como meu desjejum...
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