Evelyn,
Despi-me de minhas obrigações por alguns dias. Tracei meu caminho na areia, caminhei pelo litoral de praia em praia, relendo alguns trechos de cartas que nunca serão-lhe entregues e que foram se acumulando no fundo de minhas bagagens e de minhas memórias.
Como um ourives empenhado em dobrar o ouro e curvar o metal, eu dobro, curvo, torço e teço minhas palavras sobre o papel, marcado com tinta e sangue e sal. Profiro palavras ao vento costeiro, na esperança de que alguma andorinha que tenha perdido o rumo as apanhe e as leve até o parapeito de tua janela, e quem sabe assim você sorriria ao saber de um amor antigo que é ainda vivo e ainda razão de viver. E quem sabe essa andorinha não tomasse de você alguma dessas suas cartas não endereçadas e trouxesse a mim, e enfim eu saberia que junto com o pássaro foi-se sua tristeza toda, tua angústia toda...? Um porta-jóias com tudo que afoga teu peito, com tudo que acinzenta seu dia. Um porta-jóias que eu cuidadosamente colocaria sobre a areia, para ser banhado pelo oceano e lavado e levado pelas águas para longe, de onde não mais te alcançaria nada que lhe fizesse mal.
Como um ourives empenhado em dobrar o ouro e curvar o metal, eu me sento n'areia e cuidadosamente dobro em pequenos barcos de papel essas cartas todas que eu lhe fiz com meus mais sinceros sentimentos. Dobrei-lhe nos vincos e levei essas mais de três mil e duzentas cartas - uma para cada dia em que te amei - à beira da praia deserta. E enquanto as nuvens encobriam o sol pálido, eu mandei a frota navegar. Despedaçada em três mil e duzentos pedaços, eu te consignei ao Atlântico, e me sentei enquanto te observava afundar...
...E daqui de longe, do alto da serra, eu ainda consigo ver minha armada: três mil e duzentos barcos que se afundam e se despedaçam, escoltando sua dor enclausurada numa caixinha de jóias rumo ao infinito que repousa no leito do oceano...
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