segunda-feira, 16 de abril de 2012

Carta 006

Minha querida, querida Evelyn...

  ...Encontro-me em Crise Existencial profunda. Crise essa que dura já 14 semanas. Crise essa que eu cultivo e amo como uma mãe ama o feto não parido. E temo que tal Crise não será passageira, leviana, sucinta, irrelevante ou pouco importante. Pelo contrário, sinto que ela é tão relevante, importante, impactante a ponto de ser hostil, bruta a ponto de fazer sangrar, fria e sincera, que sinto a necessidade de escrevê-la com a primeira letra em maiúsculo, como se fosse digna de título de divindade.
  Prevejo-a mudar intrinsecamente minhas faculdades mentais, meu modo de vida e os pilares sobre os quais apóio meus prospectos morais e éticos. Prevejo-a se aprofundar em meados de julho. Prevejo que o julho deste ano será mais frio que o usual, mais visceral que o usual. Na verdade, prevejo que este ano será mais frio, visceral, hostil, relevante... Uma catarse. Purificação através da dor, da arte, do sacro-ofício, do pecado, da heresia, da violência, do sangue e da carne e do espírito.
  Vou escalar o prédio mais alto da cidade, estender meus braços ao infinito que se projeta acima e abaixo do meu corpo, e deixar que a gravidade me acorde. Farei parte do asfalto, regarei a planta que racha o concreto com meu sangue, e viverei para sempre nas entranhas desta cidade que é moribunda enquanto o sol é vivo, e viva quando o sol renuncia.

L.

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