segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Carta 025

 Chovia forte. Eu, perdido e com frio, caminhei até a chapeleira e vesti um sobretudo de lã e coloquei uma boina esverdeada para te ver. Limpei meus óculos e girei a chave na porta. Dois estalos, a porta se abriu com um gemido e o vento acertou-me bem na face. Frio. Fechei a porta com a chave e caminhei pelo ladrilho molhado. A água escorria pelo meu rosto incessantemente. o vento levantava as abas de meu sobretudo e tentava me empurrar de volta para casa. A noite, opressora, pesava sobre mim. Ninguém queria que eu fosse até você, mas nem mesmo o tempo, nem mesmo a água, ou o fogo ou a noite me impediriam de te ver. Nem a mão de deus me puxando pelos ombros me faria parar de andar em direção a sua casa. Nem o tridente ensanguentado do diabo cravado em meu peito me faria parar de andar em direção a você.
 Eu parei em frente a sua casa. Meu coração batia forte. Eu bati à sua porta, mas você não me respondeu. Eu insisti, mas você não ouviu. Eu gritei, mas a chuva calou meu grito. Eu esperei. Eu esperei. Eu esperei, mas você não me ouviu. O vizinho, surpreso em me ver na calçada de noite debaixo de tão forte chuva, me disse que você não estava. Que você já tinha ido. Que você foi. Você foi, e eu fiquei. Sozinho.
 Eu, calado, tracei o caminho de volta para minha casa. Eu levei mais de duas horas para voltar - Mais que o dobro do que levei para ir. Eu me perdi. Eu desisti. Eu não aguentei, Evelyn. Eu vaguei sozinho debaixo da chuva, eu me sentei no meio-fio. Sozinho. Só havia eu nas ruas, só havia eu esperando o dilúvio me levar. Eu, o homem que não embarcou na Arca de Noé por opção. Por querer se afogar. Por querer me afogar. Eu, o homem que não tentou fugir de Gomorra por querer ver o fogo me consumir.
 E o que moveu meus pés de volta à minha casa, horas depois de meu colapso, foi a tola esperança de te rever. De acreditar que um dia, você voltaria. Por que sem você, não tem graça. Por que sem você, eu sou oco. Por que talvez eu precise mesmo de você. Porque nenhum abraço acolhe como o seu, Evelyn. Porque nenhum beijo é como o seu, Evelyn. Porque ninguém é como você, Evelyn...

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