segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Carta 074

Eu me lembro que eu comecei ressignificando  o céu.

Primeiro, ressignifiquei as cores --
O azul do dia e o dourado do fim de tarde de seus olhos;
O negro profundo da noite, as noites com você;
O pálido d'alvorada, sua pele alva.

Depois eu ressignifiquei o que era sensorial --
O frio da noite era a sua ausência;
O calor da tarde era o calor do teu seio e do teu abraço;
O orvalho da manhã a promessa de você, de tudo que eu anseio.

Então eu ressignifiquei o espaço,
e o que passava no céu
era sempre um pedaço
do que passou entre você e eu.

Fui além e ressignifiquei a noite.
E a noite era não-você.
E era você ao amanhecer,
e desvocê quando o sol vinha a se desfalecer.

E o céu todo foi sendo você --
E o céu todo era enfim você,
mas não era; Era o que não era
e era o que era, e eu então já não sabia
se quando no céu eu te via,
eu realmente te via ou só te sentia.

E quando dei por mim,
em braile as estrelas te soletravam
e em sânscrito os cometas te escreviam
e em Morse de você, de lá me contavam.

Ressignifiquei até o reflexo do céu no mar,
E quando o sol desce até se afogar,
a falta de ar que o faz sufocar
é você, quando vai embora sem vacilar.

Eu ressignifiquei, e ressignificando
eu te descobri - ou me descobri.
Eu ressignifiquei, talvez, a própria ressignificação
e agora eu já nem sei
se no meio disso tudo
eu não ressignifiquei também o meu coração...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Carta 073

No fim da cordilheira, eu vejo o Grande Templo no horizonte.
Negro, imóvel e perpétuo no horizonte.
Solitário e frio.
Vazio e sem vida.
Um grande bloco de magma negro dividindo o céu branco acima das cinzas abaixo.

Quem caminhar até o fim da cordilheira - quem tiver a energia (ou tamanha necessidade de fuga) para completar tal peregrinação - me encontrará ao final dela:
Borobudur - construído não com rochas vulcânicas, mas com tristeza.
Borobudur - erguido não com argamassa, mas com saudade.
Borobudur - firmado não sobre a montanha, mas sobre as lembranças.
Borobudur - o Templo Maior. Solitário e frio. Vazio e sem vida. Imóvel e perpétuo no horizonte.

Sempre seu,
Leo. 

ou apenas

Seu
Borobudur.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Carta 072

Evelyn,

Toda Caracórum é coberta, não de neve, mas de cinzas.
Daqui de cima vejo o cascalho negro desenhado entre as montanhas, a estrada cortando a cordilheira de ponta a ponta.
Atravesso esse Himalaia vestido de lembranças, um Everest enterrado em cartas chamuscadas.
Vi pagodes titânicos erguidos com a dor de lembranças - obeliscos de arrependimento cravados no coração da cordilheira.
Vi templos deixados para trás à mercê do tempo.
Por vim, me vi deixado para trás, à mercê do tempo.

Daqui, eu não consigo ouvir o Mar.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Carta 071

Caminho há dezessete semanas já, Evelyn, sobre o cinza que se estende até onde alcança a vista.
Aqui tudo é estático. Aqui, nada se move. Aqui nada é vivo, mesmo sem estar realmente morto.
O que eu pensava ser neve continua caindo preguiçosamente. Sem vento, o único som que corta o silêncio funéreo é o som dos meus pés afundando, passo a passo, no terreno instável.
Meus cabelos se tornaram cinza - não pela idade.
Minha pele está cinza. Sou um brâmane banhado em cinzas caminhando cego por lugar nenhum.
Sigo o sol poente no horizonte. Ele não é confiável aqui. Nenhum sol que brilhe à meia-luz perpetuamente é confiável. Eu caminho para o Oeste esperando encontrar a noite e as estrelas logo.

Olhando para cima, deixando as cinzas que caem devagar se acumularem ainda mais em minha barba, estendi o braço e tomei em minhas mãos um pedaço de papel chamuscado. O ar aqui queima.
Demorei alguns dias para entender que o que eu pensei ser neve não era neve.
Trazendo para perto de meus olhos, com certa dificuldade consegui ler as primeiras palavras do que estava escrito naquele papel: "Minha querida Evelyn..."

terça-feira, 22 de abril de 2014

Carta 070

Aqui as árvores não respiram.
Não há vida até onde alcança a vista.
O mar é sempre parado. Não há música na rebentação. Não há ondas ao amanhecer.
Meus primeiros passos foram incertos na areia branca-acinzentada. O sol brilha fraco entre as nuvens. O céu aqui é para sempre cinza, mas nunca chove.
Senti a neve caindo sobre meus cabelos ao entardecer, apesar de não estar demasiado frio para nevar.
O que é tudo isso?
Seria essa ilha um espelho daquela outra?
Seria essa a ilha que nós criamos, mas que só agora eu consigo enxergá-la?
Evelyn, foi você quem criou isso tudo...?

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Carta 069

Pelos sete mares, Evelyn...
Pelos sete céus...

...Acordei há pouco sentindo-me ainda zonzo, ainda desidratado, ainda moribundo.
Demorei alguns minutos para assimilar o que estava acontecendo: porque o mal-estar que eu sentia há dias parecia amenizar-se. Finalmente cheguei a algum lugar. Saltei do pequeno barco de um salto e, enfim, pisei em terra firme.
Receio, no entanto, estar mais perdido do que nunca. Não estou nos portos ao sul da ilha. Não estou no continente. Não estou próximo dos mercados da Indochina, nem nos portos de Lisboa. Demorei para me habituar a essa nova realidade. Aqui neva. Aqui não venta. Aqui, o tempo parece congelado...
Onde eu estou, me pergunto...?
Eu criei isso? Nós criamos isso? Seria essa a nossa ilha...?

- Leo

sábado, 29 de março de 2014

Carta 068

Deste lado não há fogo.
Deste lado me afogo.
Destilado me afogo(a).
Destilado me há fogo  -
                                      -   Desolado.

Há de me haver algo?
(Há de me haver fogo)
Há de me ver desolado?
Hades me ver desolado.
Hades me ver de seu lado.
De seu lado, não há de haver fogo.
De seu lado, me afogo.
Não há fuga do Hades.
Não há;  Fuga
              Hades     
              Fogo.
Não.
Há.
Fuga.
De você.
Do fogo.
Do Mar.
Fuga.
Não.
Há.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Carta 067

Evelyn, eu já não tenho certeza de há quanto tempo estou naufragado, apenas esperando.
Às vezes, penso que eu deveria mergulhar e nadar até o fundo do Oceano.
Enfim ver o que há lá embaixo. Ver quem canta as canções que eu ouço durante meu sono.
Ver de perto as formas dos peixes que, ao entardecer, voam por sobre meu barco deixando atrás de si uma estrada dourada de luz refletida n'água.
Enxergar as milhares de águas vivas que de noite iluminam o mundo de cabeça para baixo.
Pôr à prova todas as estórias que os pescadores outrora me contaram sobre baleias maiores que uma ilha, leviatãs e outros demônios que habitam as águas.
Sentiria o calor saindo do meu corpo, assim como minha consciência,  diluindo-se nas frias águas que me abraçariam. Beberia todo o sal do Oceano, fruto das lágrimas surdas de todos os mamíferos que foram condenados a vagar eternamente sob o limiar do horizonte, e de todas as sereias que, mortas de tristeza, tornaram-se espuma na rebentação.
E lá eu me deitaria. Meu leito no leito d'Oceano. Nosso amor para sempre vivo nas águas de todos os mares do mundo...

-L

quinta-feira, 27 de março de 2014

Carta 066

Evelyn, se eu gritar você me ouve?
Se eu mergulhar, você nadará até mim, vinda dos destroços naufragados de um antigo navio e me levará até a praia..?

quarta-feira, 26 de março de 2014

Carta 065

Evelyn, eu espero que você receba todas essas cartas que eu entrego às águas.
Espero que as sereias mudas que me visitam durante o sono saibam onde levar essas palavras engarrafadas, pois eu mesmo não tenho certeza.
Eu mal consigo decifrar o que o vento sussurra em meu ouvido. A luz de manhã fere meus olhos e queima minha pele. A escuridão da noite enrijece meus músculos e entorpece meus sentidos. Eu não sei mais para onde estou indo.
Eu já não remo mais.
Eu mal tenho forças para continuar a lhe escrever.
Talvez o meu fim seja aqui, neste pequeno barco rumo ao nada depois do horizonte - rumo ao nada debaixo do horizonte.

domingo, 9 de março de 2014

Carta 064

Evelyn, hoje acordei fitando seus olhos.

Deitado neste barco, naufragado, pude vê-los acima de mim me velando.

Pendurados no firmamento, de um lado o Sol, do outro lado a Lua.

O mel que despontava do Leste empurrando preguiçosamente a esmeralda para o Oeste.

Fechei novamente meus olhos, tranquilo, sabendo que você me vigiava e peguei no sono.

sábado, 8 de março de 2014

Carta 063

Talvez eu tenha superestimado minhas habilidades como navegador.
É o segundo dia que estou aqui no Oceano, e ainda não encontrei sinal de terra. E agora, cercado pela imensidão azul, tenho minhas dúvidas se sequer conseguiria voltar para o lugar de onde eu vim.
Estou jogado à sorte dos sete ventos e conto com a sabedoria das monções e das marés para me guiar para qualquer lugar mais perto de você.

- Leo

sexta-feira, 7 de março de 2014

Carta 062

    Faz entre cinco e sete dias que eu não descanso, Evelyn.
    Minhas costas doem como nunca. Minha boca está rachada, seca, e minha língua embebida no gosto ferroso do sangue há uma semana. Meus olhos mal conseguem focar o terreno à minha frente.
    Minhas pernas fraquejam. Meus músculos gritam por descanso. Manco da perna direita, me apoio em um pedaço de madeira que encontrei em meio à floresta que recobre essa parte da ilha. A dor é tamanha que eu nem sinto mais minhas pedras cortando meus rins.

 Por onde você saiu?

    Eu já percorri todas as praias do Leste. Já mergulhei em meio aos escombros na enseada a Sudeste e já gritei seu nome até ficar rouco nos portos ao Sul. Enfrentei a paisagem do Norte, percorri o istmo, subi e desci todas as montanhas que dividem essa ilha, me perdi no meio das florestas tropicais e dos pântanos. Tateei cego todas as grutas que encontrei pelo caminho, dormi ao relento, me arrastei à luz dos vaga-lumes, mas ainda assim não encontrei um único vestígio seu.
    As estalagens estão vazias. Nos vilarejos os pescadores desviaram o olhar enquanto eu passava...

Ninguém desaparece assim, Evelyn.

***

    Faz duas semanas desde que me coloquei a caminhar pela ilha atrás de você ou algo que me desse algum sinal de seu paradeiro, em vão. Hoje cedo, antes do sol nascer, corri para o porto ao Sul e roubei um pequeno barco a remo. Se eu conseguir ser rápido, até amanhã de noite devo estar chegando no Continente.
 
Se não lá, em alguma outra memória nossa eu irei te encontrar.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Carta 061

Hoje eu acordei com o rosto na areia.
Não me lembro de muito da noite anterior... O gosto de álcool e mel ainda estava em meus lábios quando o sol e o calor me fizeram despertar. 
Acordar ao lado das ondas é como acordar ao seu lado. 
Ver o azul-safira do Oceano ao despertar é como despertar do seu lado...

Hoje eu atravessei essa ilha inteira à pé, trilhando o caminho que outrora trilhamos juntos.
É possível que, mesmo ausente, eu possa te perder?
Juntos subimos o pequeno morro que divide as enseadas, e atravessamos a montanha que divide a ilha em duas.  Escoltados pelo vento ululante e pelo canto das marés, desenhamos nossos passos n'areia conforme o sol descia preguiçoso no horizonte. Novamente percorremos o istmo e seguimos cada vez mais ao norte, enquanto as ondas apagavam as provas de que algum dia alguém marcou essas brancas areias.
E, quanto mais ao norte eu ia, mais meus ombros pesavam.
Mais salgado era o ar. Mais selvagem e escuro era o mar.
Mais carregadas as nuvens...
E então eu olhei para trás e vi apenas meus passos na areia.
Quando foi que você desviou seu caminho?
Em que momento eu soltei de sua mão?
Em que momento não éramos mais um só...?
Quando foi que os ventos do norte se tornaram de súbito tão fortes a ponto de você se assustar e não querer mais continuar?
Sem você aqui, Evelyn, os ventos são gelados. O mar está sempre de ressaca, hostil, e nenhuma andorinha ousa planar...

Hoje eu adormeci com o rosto na areia.
Desesperado, tentei me esquecer da sua ausência me intoxicando com as bebidas feitas à base de mel e álcool que são típicas do norte da ilha. E o sabor adocicado ainda escorria em minha barba quando eu adormeci, velado pelo frio e pela pálida luz da lua.
Dormir ao lado da tempestade que se aproxima é como te perder.
Ver o céu cinza ao adormecer é adormecer longe de você...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Carta 060

Eu estou enlouquecendo, Evelyn?
Pois eu sinto seu perfume durante o pôr-do-sol e a alvorada na enseada.
Eu ouço sua voz nas ondas da rebentação.
E eu vejo sua silhueta ao longe, no limiar do horizonte se perdendo na escuridão...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Carta 059

Há dois anos eu te enviei a primeira carta, Evelyn, incerto.
Sem você estar de fato aqui, eu falava com você.
E aí você apareceu. E depois você partiu.
E essa cadeia de eventos, onde você se materializava à minha frente e no instante seguinte não mais existia se repetiu algumas vezes. E eu te perdia, e eu perdia o ar.
E um dia, você não voltou.
E eu esperei.
E eu esperei.
E eu esperei.
E você não voltou.
E hoje, depois de dois anos, depois de dois longos anos, eu recebi uma carta sua.
Apenas isso. Apenas agora.
E por quê? O serviço do correio demorou a lhe entregar o envelope? A maré fez a garrafa se atrasar? Ou o pombo responsável por entregá-la se perdeu no meio do caminho?
...Ou você se esqueceu esse tempo todo?