Evelyn,
Talvez eu tenha mentido para você, e por isso eu deveria me desculpar.
Como quando você me perguntou se estava tudo bem, e eu respondia que sim. Não, não está tudo bem.
Como quando você me perguntou se eu pretendia sumir de novo, e eu disse que não. Sim, eu acho que isso passou pela minha cabeça tanto nos últimos dias que já é quase uma idéia inabandonável.
E você me pergunta o que acontece... Eu não sei. Eu tenho algumas idéias, no entanto. Desde as dores que me escapam à boca a ânsia e o tossir seco, até a alma que se sente deslocada nessa cidade. Até meus pulmões que já trabalham por inércia e o coração que bate desacreditado. Me sinto um moribundo. Um imbecil caído no chão, em lugar nenhum, apenas esperando o derradeiro momento em que Ela viria me ceifar a alma. Mas tão decrépita alma, nem Morte nem Diabo nenhum quer. Nem deus nenhum. Anjo expulso dos céus e rejeitado pelo inferno, destinado a vagar pelo limbo até o dia do julgamento, quando seria também ignorado. Esquecido, jogado no vazio...
"Não vês que me foge a alma e que me enjeita, buscando num só riso da tua boca, nos teus olhos azuis, mansa colheita?"
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Carta 031
Evelyn...
Eu estou cansado.
Eu acordo manco. Eu caminho com meus joelhos falhando.
Minha gastrite me saúda todo dia, cada vez de forma mais veemente e, por vezes, eu me pego cessando uma caminhada devida às dores em meu estômago.
E tem mais as dores que os médicos não souberam explicar.
E eu ando nervoso. Estressado. Solitário. Triste.
E em demasia. Tudo isso em demasia. E eu simplesmente não sei lidar com tudo isso, e é por isso que eu tento medicar os sintomas do único jeito que eu sei.
E que venham as lutas, o sangue pintando as paredes, as mãos cortadas, os ossos trincados...
E que venham os entorpecentes, de venda controlada ou proibida. Troco toda minha seda por um bom punhado de ópio. Troco minha consciência por um bom punhado de algo pior ainda que o ópio.
Que venha o álcool, castigando o fígado e apaziguando a alma. Que venha tudo isso que me faz mal, e que por me fazer mal, me faz bem. Autodestruição do corpo para a gênese de uma nova alma. Sacrifício em nome de nada, nem ninguém...
Inversão dos números. Que meu sangue se torne ácido e termine por corroer meu corpo.
Eu já não ligo mais, Evelyn.
Porque aqui dentro, tem muita coisa errada, muita coisa fora do lugar....
...E talvez eu precise de ajuda mesmo, Evelyn...
Eu estou cansado.
Eu acordo manco. Eu caminho com meus joelhos falhando.
Minha gastrite me saúda todo dia, cada vez de forma mais veemente e, por vezes, eu me pego cessando uma caminhada devida às dores em meu estômago.
E tem mais as dores que os médicos não souberam explicar.
E eu ando nervoso. Estressado. Solitário. Triste.
E em demasia. Tudo isso em demasia. E eu simplesmente não sei lidar com tudo isso, e é por isso que eu tento medicar os sintomas do único jeito que eu sei.
E que venham as lutas, o sangue pintando as paredes, as mãos cortadas, os ossos trincados...
E que venham os entorpecentes, de venda controlada ou proibida. Troco toda minha seda por um bom punhado de ópio. Troco minha consciência por um bom punhado de algo pior ainda que o ópio.
Que venha o álcool, castigando o fígado e apaziguando a alma. Que venha tudo isso que me faz mal, e que por me fazer mal, me faz bem. Autodestruição do corpo para a gênese de uma nova alma. Sacrifício em nome de nada, nem ninguém...
Inversão dos números. Que meu sangue se torne ácido e termine por corroer meu corpo.
Eu já não ligo mais, Evelyn.
Porque aqui dentro, tem muita coisa errada, muita coisa fora do lugar....
...E talvez eu precise de ajuda mesmo, Evelyn...
L.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Carta 030
No meio da neblina meu corpo se dissolve,
Despedaçado e perdido, eu desvaneço na névoa.
Pendurado pelo pescoço, o frio me envolve,
E me devolve à paz outrora esquecida.
Despedaçado e perdido, eu desvaneço na névoa.
Pendurado pelo pescoço, o frio me envolve,
E me devolve à paz outrora esquecida.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Carta 029
Evelyn,
Me sinto como um marinheiro que parte só, num barco rumo ao desconhecido para além do horizonte. Deixando para trás tudo que lhe faz bem, e tudo que lhe faz mal, e tudo que ama e já amou. Solitário, o único caminho a seguir é à frente. Rumo ao eterno vazio da noite. Sozinho, lutando contra os ventos e as tempestades. Rendido à própria sorte. Indefeso, apenas esperando com o arpão em mãos pelo Leviatã que há de lhe virar o barco e lhe tragar ao leito d'oceano.
Às vezes acho que tudo isso é demais, Evelyn, e acho que esse oceano todo que me afoga sou eu mesmo. É possível morrer afogado em si mesmo?
E às vezes eu acho que eu poderia chorar um Ganges inteiro. Abençoar toda Varanasi com o sal de minha tristeza, e observar enquanto eu mesmo seria cremado em uma pira à beira do rio.
Vestes brancas e cinzas brancas.
Um brâmane exilado, abandonado, afogado em vermilion.
Um xátria armado, disposto a morrer por orgulho. Disposto a se matar por orgulho.
Um vaixá com todo um comboio de desilusões e potes cheios de nada e baús forrados com todo o sal que eu consegui filtrar de minhas próprias lágrimas.
Um shudra que se arrasta e se banha no rio profano. Que se curva à própria mediocridade.
Um pária. Sozinho e abandonado.
E, sem querer assim, de tanta dor no rio outrora sagrado, toda Calcutá fugiria com pesar no coração, e toda Bangladesh partiria com o peito sufocado... E toda Varanasi, de tanta santidade, morreria. E toda vida no Ganges não mais existiria. Pois aqui dentro a angústia é tanta, que vida nenhuma habitaria às margens do rio que nasce em meu âmago. E seria assim que, em sal e cinzas, eu encontraria meu fim às margens do Oceano Índico, afogado em mim mesmo...
Afogado no meu próprio Rio Ganges...
Me sinto como um marinheiro que parte só, num barco rumo ao desconhecido para além do horizonte. Deixando para trás tudo que lhe faz bem, e tudo que lhe faz mal, e tudo que ama e já amou. Solitário, o único caminho a seguir é à frente. Rumo ao eterno vazio da noite. Sozinho, lutando contra os ventos e as tempestades. Rendido à própria sorte. Indefeso, apenas esperando com o arpão em mãos pelo Leviatã que há de lhe virar o barco e lhe tragar ao leito d'oceano.
Às vezes acho que tudo isso é demais, Evelyn, e acho que esse oceano todo que me afoga sou eu mesmo. É possível morrer afogado em si mesmo?
E às vezes eu acho que eu poderia chorar um Ganges inteiro. Abençoar toda Varanasi com o sal de minha tristeza, e observar enquanto eu mesmo seria cremado em uma pira à beira do rio.
Vestes brancas e cinzas brancas.
Um brâmane exilado, abandonado, afogado em vermilion.
Um xátria armado, disposto a morrer por orgulho. Disposto a se matar por orgulho.
Um vaixá com todo um comboio de desilusões e potes cheios de nada e baús forrados com todo o sal que eu consegui filtrar de minhas próprias lágrimas.
Um shudra que se arrasta e se banha no rio profano. Que se curva à própria mediocridade.
Um pária. Sozinho e abandonado.
E, sem querer assim, de tanta dor no rio outrora sagrado, toda Calcutá fugiria com pesar no coração, e toda Bangladesh partiria com o peito sufocado... E toda Varanasi, de tanta santidade, morreria. E toda vida no Ganges não mais existiria. Pois aqui dentro a angústia é tanta, que vida nenhuma habitaria às margens do rio que nasce em meu âmago. E seria assim que, em sal e cinzas, eu encontraria meu fim às margens do Oceano Índico, afogado em mim mesmo...
Afogado no meu próprio Rio Ganges...
L.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Carta 028
De joelhos, me prostro perante deus algum;
Atrás de mim e acima de mim, o vazio.
À frente, abaixo, o vazio.
E dentro de mim, o vazio.
Minha fronte sangra. Meus olhos não enxergam.
O vazio fora de foco não me diz nada.
E o nada me diz muito.
E muito nunca é o suficiente.
Meu peito não respira. Meu coração não bate.
Meu espírito é impávido.
Meu espírito é imbatível.
Uma inabalável muralha de desilusões.
Minhas roupas são o vento.
Meus sentimentos são como o vento.
Nu, cego e frio, eu sou como o vento.
Mudo e implacável, eu sou tempestade.
Imóvel, eu sou rocha inquebrável.
Perpétuo, sou um monólito solitário.
Minhas mãos são a terra,
Minh'alma, barro.
Atrás de mim e acima de mim, o vazio.
À frente, abaixo, o vazio.
E dentro de mim, o vazio.
Minha fronte sangra. Meus olhos não enxergam.
O vazio fora de foco não me diz nada.
E o nada me diz muito.
E muito nunca é o suficiente.
Meu peito não respira. Meu coração não bate.
Meu espírito é impávido.
Meu espírito é imbatível.
Uma inabalável muralha de desilusões.
Minhas roupas são o vento.
Meus sentimentos são como o vento.
Nu, cego e frio, eu sou como o vento.
Mudo e implacável, eu sou tempestade.
Imóvel, eu sou rocha inquebrável.
Perpétuo, sou um monólito solitário.
Minhas mãos são a terra,
Minh'alma, barro.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Carta 027
Evelyn,
O que dizer? Como posso não ser tendencioso após os acontecimentos recentes?
Tudo passa na minha mente e se repete como um filme. Ou uma peça de teatro. Ou um trecho de um livro. E eu quero reler esse livro mil vezes, e mil vezes mais cada dia. Porque tanta coisa deu errada do lado de cá nos últimos meses, e ainda assim, tanta coisa deu certa de maneiras que eu sequer imaginaria.
E, quando eu pensei que você fosse sumir, você não sumiu. E, quando eu pensei em partir, eu não o fiz. E foi por esforço mútuo, não?
Afinal de contas, não é amor isso que sentimos um pelo outro? Ambos sabemos que isso é amor de verdade. Amor gravado na carne, cravado no fundo do peito. Amor esse que eu sei que também arde dentro de ti. E nós podíamos estar em qualquer lugar, mas escolhemos estar juntos aquela noite. Nós podíamos estar separados, mas decidimos, sobretudo, estar juntos. E nada nesse mundo poderia ser tão bom quanto estar contigo naquela noite. Nada poderia ser tão bom quanto ver o seu sorriso, e os fogos refletidos em seus olhos.
E alguns cigarros, algumas cervejas e alguns beijos roubados depois... Evelyn, o que me resta? Um sorriso cravado no rosto, acima de tudo.
Afinal de contas, minha querida Evelyn, se fosse preciso, eu iria até o inferno te buscar. Por que você me faz bem como ninguém mais faz.
O que dizer? Como posso não ser tendencioso após os acontecimentos recentes?
Tudo passa na minha mente e se repete como um filme. Ou uma peça de teatro. Ou um trecho de um livro. E eu quero reler esse livro mil vezes, e mil vezes mais cada dia. Porque tanta coisa deu errada do lado de cá nos últimos meses, e ainda assim, tanta coisa deu certa de maneiras que eu sequer imaginaria.
E, quando eu pensei que você fosse sumir, você não sumiu. E, quando eu pensei em partir, eu não o fiz. E foi por esforço mútuo, não?
Afinal de contas, não é amor isso que sentimos um pelo outro? Ambos sabemos que isso é amor de verdade. Amor gravado na carne, cravado no fundo do peito. Amor esse que eu sei que também arde dentro de ti. E nós podíamos estar em qualquer lugar, mas escolhemos estar juntos aquela noite. Nós podíamos estar separados, mas decidimos, sobretudo, estar juntos. E nada nesse mundo poderia ser tão bom quanto estar contigo naquela noite. Nada poderia ser tão bom quanto ver o seu sorriso, e os fogos refletidos em seus olhos.
E alguns cigarros, algumas cervejas e alguns beijos roubados depois... Evelyn, o que me resta? Um sorriso cravado no rosto, acima de tudo.
Afinal de contas, minha querida Evelyn, se fosse preciso, eu iria até o inferno te buscar. Por que você me faz bem como ninguém mais faz.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Ensaio sobre uma epifania num quarto de hospedaria durante a madrugada de um sábado chuvoso
Ela o encontrou sentado na poltrona da sala, fitando o vazio com aquele olhar que já lhe era de costume. Um olhar cansado, perdido, desolado... triste. O livro aberto na mão era apenas uma desculpa para se sentar em silêncio, um meio de enganar a quem o visse de forma a pensar que estava lendo, quando na verdade estava apenas se afundando em suas quimeras e seus devaneios - Muito embora não houvesse a quem enganar, visto que eles eram os únicos no recinto, e ela já sabia que as páginas que ele tanto encarava não lhe diziam nada que já não soubesse.
Ela deu um passo curto em sua direção. Atrás das portas de madeira, a chuva caia pesada. O estalar das chamas que se morriam na lareira era sufocado pelo som das águas que afogavam a cidade e martelavam as janelas. Por um momento, ela pensou ter visto uma lágrima correndo seu rosto, mas não pôde ter certeza. Ela nunca soube se fizera algum barulho ou se ele pressentira sua presença no ar através de algum sexto sentido que há muito nossa biologia abandonara. De súbito, ele fechou o livro e respirou fundo. Virou-se, fitando-a direto nos olhos, com o olhar pesado, porém decidido. Sua silhueta era desenhada pela luz avermelhada das brasas, que refletia nas hastes de seus óculos e nos fio de seu cabelo e de seu bigode, e a escuridão que o abraçava acolhedoramente parecia viva, como que se o abraçasse e o aquecesse enquanto estivera sozinho. Como se seus anseios e sua melancolia tivessem decidido tomar forma visível ao olho, e essa forma era a treva sufocante, densa...
Ficaram se encarando em silêncio por alguns segundos ou alguns anos - ela não saberia dizer. E, antes mesmo que ela pudesse perguntar, ele respondeu com uma calma que não era do mundo humano, com um desespero nos olhos que não era do mundo humano:
- Eu acho que sei o que devo fazer, minha querida...
- E o que você pretende fazer...?
- Ah, você verá, Evelyn...! Você verá...
Ela deu um passo curto em sua direção. Atrás das portas de madeira, a chuva caia pesada. O estalar das chamas que se morriam na lareira era sufocado pelo som das águas que afogavam a cidade e martelavam as janelas. Por um momento, ela pensou ter visto uma lágrima correndo seu rosto, mas não pôde ter certeza. Ela nunca soube se fizera algum barulho ou se ele pressentira sua presença no ar através de algum sexto sentido que há muito nossa biologia abandonara. De súbito, ele fechou o livro e respirou fundo. Virou-se, fitando-a direto nos olhos, com o olhar pesado, porém decidido. Sua silhueta era desenhada pela luz avermelhada das brasas, que refletia nas hastes de seus óculos e nos fio de seu cabelo e de seu bigode, e a escuridão que o abraçava acolhedoramente parecia viva, como que se o abraçasse e o aquecesse enquanto estivera sozinho. Como se seus anseios e sua melancolia tivessem decidido tomar forma visível ao olho, e essa forma era a treva sufocante, densa...
Ficaram se encarando em silêncio por alguns segundos ou alguns anos - ela não saberia dizer. E, antes mesmo que ela pudesse perguntar, ele respondeu com uma calma que não era do mundo humano, com um desespero nos olhos que não era do mundo humano:
- Eu acho que sei o que devo fazer, minha querida...
- E o que você pretende fazer...?
- Ah, você verá, Evelyn...! Você verá...
Assinar:
Comentários (Atom)