sábado, 29 de março de 2014

Carta 068

Deste lado não há fogo.
Deste lado me afogo.
Destilado me afogo(a).
Destilado me há fogo  -
                                      -   Desolado.

Há de me haver algo?
(Há de me haver fogo)
Há de me ver desolado?
Hades me ver desolado.
Hades me ver de seu lado.
De seu lado, não há de haver fogo.
De seu lado, me afogo.
Não há fuga do Hades.
Não há;  Fuga
              Hades     
              Fogo.
Não.
Há.
Fuga.
De você.
Do fogo.
Do Mar.
Fuga.
Não.
Há.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Carta 067

Evelyn, eu já não tenho certeza de há quanto tempo estou naufragado, apenas esperando.
Às vezes, penso que eu deveria mergulhar e nadar até o fundo do Oceano.
Enfim ver o que há lá embaixo. Ver quem canta as canções que eu ouço durante meu sono.
Ver de perto as formas dos peixes que, ao entardecer, voam por sobre meu barco deixando atrás de si uma estrada dourada de luz refletida n'água.
Enxergar as milhares de águas vivas que de noite iluminam o mundo de cabeça para baixo.
Pôr à prova todas as estórias que os pescadores outrora me contaram sobre baleias maiores que uma ilha, leviatãs e outros demônios que habitam as águas.
Sentiria o calor saindo do meu corpo, assim como minha consciência,  diluindo-se nas frias águas que me abraçariam. Beberia todo o sal do Oceano, fruto das lágrimas surdas de todos os mamíferos que foram condenados a vagar eternamente sob o limiar do horizonte, e de todas as sereias que, mortas de tristeza, tornaram-se espuma na rebentação.
E lá eu me deitaria. Meu leito no leito d'Oceano. Nosso amor para sempre vivo nas águas de todos os mares do mundo...

-L

quinta-feira, 27 de março de 2014

Carta 066

Evelyn, se eu gritar você me ouve?
Se eu mergulhar, você nadará até mim, vinda dos destroços naufragados de um antigo navio e me levará até a praia..?

quarta-feira, 26 de março de 2014

Carta 065

Evelyn, eu espero que você receba todas essas cartas que eu entrego às águas.
Espero que as sereias mudas que me visitam durante o sono saibam onde levar essas palavras engarrafadas, pois eu mesmo não tenho certeza.
Eu mal consigo decifrar o que o vento sussurra em meu ouvido. A luz de manhã fere meus olhos e queima minha pele. A escuridão da noite enrijece meus músculos e entorpece meus sentidos. Eu não sei mais para onde estou indo.
Eu já não remo mais.
Eu mal tenho forças para continuar a lhe escrever.
Talvez o meu fim seja aqui, neste pequeno barco rumo ao nada depois do horizonte - rumo ao nada debaixo do horizonte.

domingo, 9 de março de 2014

Carta 064

Evelyn, hoje acordei fitando seus olhos.

Deitado neste barco, naufragado, pude vê-los acima de mim me velando.

Pendurados no firmamento, de um lado o Sol, do outro lado a Lua.

O mel que despontava do Leste empurrando preguiçosamente a esmeralda para o Oeste.

Fechei novamente meus olhos, tranquilo, sabendo que você me vigiava e peguei no sono.

sábado, 8 de março de 2014

Carta 063

Talvez eu tenha superestimado minhas habilidades como navegador.
É o segundo dia que estou aqui no Oceano, e ainda não encontrei sinal de terra. E agora, cercado pela imensidão azul, tenho minhas dúvidas se sequer conseguiria voltar para o lugar de onde eu vim.
Estou jogado à sorte dos sete ventos e conto com a sabedoria das monções e das marés para me guiar para qualquer lugar mais perto de você.

- Leo

sexta-feira, 7 de março de 2014

Carta 062

    Faz entre cinco e sete dias que eu não descanso, Evelyn.
    Minhas costas doem como nunca. Minha boca está rachada, seca, e minha língua embebida no gosto ferroso do sangue há uma semana. Meus olhos mal conseguem focar o terreno à minha frente.
    Minhas pernas fraquejam. Meus músculos gritam por descanso. Manco da perna direita, me apoio em um pedaço de madeira que encontrei em meio à floresta que recobre essa parte da ilha. A dor é tamanha que eu nem sinto mais minhas pedras cortando meus rins.

 Por onde você saiu?

    Eu já percorri todas as praias do Leste. Já mergulhei em meio aos escombros na enseada a Sudeste e já gritei seu nome até ficar rouco nos portos ao Sul. Enfrentei a paisagem do Norte, percorri o istmo, subi e desci todas as montanhas que dividem essa ilha, me perdi no meio das florestas tropicais e dos pântanos. Tateei cego todas as grutas que encontrei pelo caminho, dormi ao relento, me arrastei à luz dos vaga-lumes, mas ainda assim não encontrei um único vestígio seu.
    As estalagens estão vazias. Nos vilarejos os pescadores desviaram o olhar enquanto eu passava...

Ninguém desaparece assim, Evelyn.

***

    Faz duas semanas desde que me coloquei a caminhar pela ilha atrás de você ou algo que me desse algum sinal de seu paradeiro, em vão. Hoje cedo, antes do sol nascer, corri para o porto ao Sul e roubei um pequeno barco a remo. Se eu conseguir ser rápido, até amanhã de noite devo estar chegando no Continente.
 
Se não lá, em alguma outra memória nossa eu irei te encontrar.