quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Carta 052

Evelyn,

Sem palavras, eu emudeço e caio.
Deixo a gravidade me abraçar e estilhaço-me no chão em mil pedaços.
Quebrado.

- L.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Carta 051

Vou chorar um rio de lágrimas por você. Um oceano inteiro de lágrimas por você.
E sobre ele, navegarei em um barco feito de saudades.
Tomarei como vela essa dor toda que restou em mim. Terei nossas lembranças como timoneiro.
Como bússola, usarei tudo que ainda sinto por você.
E assim, navegarei rumo ao horizonte.
Navegarei rumo ao infinito...
...Pois o infinito é você.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Carta 050

Estou cansado, Evelyn.

Cansado do dissabor do cotidiano.
Cansado de acordar todo dia.
Cansado de estar sempre mais sóbrio do que deveria - mesmo que não esteja sequer próximo da sobriedade.
Cansado de estar distante.
Cansado de estar ofegante.
Cansado de estar perdido.
Cansado de não ter mais fome.
Cansado da ânsia que me acompanha o desjejum.
Cansado do desprazer de acordar todo dia.
Cansado desse vazio absoluto aqui dentro.
Cansado desse vazio absoluto ao meu redor.
Cansado de não fazer sentido.
Cansado de peregrinar sem razão.
Cansado de ser sem destino.
Cansado de vender minha alma por migalhas.
Cansado de estar só.
Cansado de sua ausência.
Cansado de drogas para manutenir meu humor.
Cansado de ver você em cada cigarro.
Em cada gole de vinho.
Em cada verso que eu escrevo.
Em cada música que ouço.
Em cada memória que eu guardo com carinho.
Em cada plano que eu tinha - e que agora devo abandonar.
Em cada lágrima minha.
Cansado da ausência do seu riso e da sua voz.
Cansado dos dias de sol.
Cansado de sentir saudade.
Cansado de sentir.
Cansado de estar cansado.
Cansado de estar.
Cansado de viver.
Cansado...

domingo, 25 de agosto de 2013

Carta 049

Ausência de um norte. O inverso de um vício.
É assim, Evelyn, perdido, que vou morrendo aos poucos.
Vai ser assim, partindo, que meu suicídio se consumará.
Aos poucos.
Morrendo um pouco por dia, até chegar ao derradeiro fim...

E tudo que eu queria era um motivo que me prendesse aqui.
Algo que me fizesse ser completo aqui. Você.
Mas eu não pertenço a lugar nenhum.
Eu sou incompleto.
Em qualquer lugar...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Carta 048

Os soldados mordem a cápsula embebida em gordura de porco e derramam a pólvora no cano.
Eu não estou como eu imaginei que estaria: com o peito estufado e olhar impávido encarando o fogo dos canhões que me alvejam.
Não.
Eu estou abatido. curvado sobre mim mesmo, apoiando minhas mãos em minhas coxas.
Sinto minhas lágrimas escorrendo aos montes. Se essas armas não dispararem logo, sinto que meu corpo se tornará inteiro água e sal e eu serei absorvido pela terra antes que o sinal de "fogo" seja dado.
Meu nariz sangra. Minha fronte sangra. Em minhas mãos, sangue. Sinto meu sangue quente fugindo de mim mesmo. Sinto frio.
À minha volta, vejo apenas cinzas. Há pouco, eu ainda tinha alguma esperança.
Há pouco, eu estava firme em meu palácio de marfim. 
Caíram muros e pilastras, e eu sozinho sustentei meu palácio com a força de minhas mãos.
Eu, sozinho.
Sempre sozinho.
Até o momento derradeiro em que aquela maldita ave passou por mim, e então eu soube.
Enquanto suas asas plainavam rumo aos céus, eu senti meu coração bater mais forte. Senti meu estômago se revirar e minha espinha congelar. Eu sabia que como a andorinha que voava para longe, você estava também partindo. E eu então desisti. Eu então me entreguei.
A última pilastra que sustentava tudo que eu era ruiu,e, com ela, eu ruí.
Eu sabia que nossos passos não iam mais se cruzar.
Eu sabia que eu não ia mais ouvir sua doce risada a preencher minha vida.
Nem seu toque. Nem seu cheiro.
Eu sabia que você, a partir daquele derradeiro momento, seria parte apenas do meu passado.
Dada a incerteza do futuro, eu aposto sempre no mais provável. E as probabilidades dizem que sim, esse é o nosso fim. Antes mesmo do nosso começo.
De joelhos, deixei que me arrastassem.
Imóvel, deixei que me linchassem.
Mudo, deixei que me humilhassem.
Eles engatilham agora suas armas. Treze homens me olham. Encaro-os um a um.
Quero que vejam o vazio inquieto que há por detrás de meus olhos.
Quero que saibam como é frio aqui dentro.
Tento me endireitar, mas não consigo.
Dor.
Olho para baixo novamente. Entre meus pés, um rio de lágrimas e sangue.
Sou o Colosso de Rodes prestes a cair.
Minha visão fica turva. Minha audição se torna abafada.
A qualquer momento agora eu irei partir, Evelyn.
Eu irei partir, talvez para sempre.
Talvez nunca mais nos vejamos.
Eu irei partir, e não em busca de mim mesmo ou de você desta vez.
Dessa vez, eu simplesmente irei partir.
E vou levar comigo toda dor e saudade que o mundo tem. Monopolizei a melancolia, e despirei o mundo de toda tristeza quando me for.
A qualquer momento agora eles irão puxar o gatilho, Evelyn.
E quando isso acontecer, eu cairei de joelhos, pronto para me afogar em meu próprio mar de sangue e sal.
Pronto para afundar com toda angústia e com todo desalento que atei a meus pés nos últimos dias de minha breve passagem por aqui.
A qualquer momento as armas irão disparar contra meu peito, Evelyn.
E quando eu cair de joelhos, com a consciência desvanecendo, eu lembrarei de você.
E em meu último suspiro, sussurrarei seu nome...

Sempre você, Evelyn...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Carta 047

   A cada dia que passa, evapora-se um pouco mais da minha escassa sanidade.
   Estou sufocando em pó e fumaça. Eu corro de cidade em cidade durante a madrugada procurando algo que eu nem sei o que é. São seis da manhã e eu estou com os pés na areia fria do litoral fitando o mar gelado. Eu sinto o vento cortante de inverno no meu rosto...

   Faz tempo que eu não tenho nenhuma notícia sua. E eu penso em você todo dia pela manhã e pela noite.
   Eu me pergunto como anda sua vida, o que você tem feito... Eu sinto sua falta, e fico construindo cenários fantasiosos em minha cabeça onde nós nos encontramos. Se eu me visse, certamente me acharia patético.
   E você deve achar algo assim também. Seu recente sumiço me fez questionar se seus sumiços se dão por acaso do destino ou por opção. E eu, imerso em meu poder de julgamento comprometido por um bom punhado de dores e uma depressão crônica que vem me corroendo nos últimos meses, acredito que essa distância crescendo entre nós é de seu agrado. Talvez não de seu desejo de forma ativa, mas de seu agrado...

   É o segundo dia afastado de minha casa. Eu pensei em rumar para o sul para te ver. Ou para o norte. Eu já nem sei mais onde estou. Eu mal sinto meus pés na areia fria. Eu sinto a umidade do ar e o sal da água sobre meu peito nu enquanto caminho pela praia. Está tão frio que meu coração até parece quente. Está tão frio que até parece que ainda há algum calor em mim...

...Talvez eu devesse parar de lutar. Talvez eu devesse simplesmente deixar você seguir seu caminho agora. Ignorar a dor que explode dentro de meu peito quando penso em te deixar partir para sempre. Ignorar as lágrimas que me afogam de noite quando penso em te perder para sempre. Ignorar tudo que sinto por você. E simplesmente sumir também...

...Meu ponto é que eu não caibo aqui. Não apenas nessa cidade, mas em todo esse modelo de sociedade. Aqui não é meu lugar. Eu simplesmente não me encaixo. E eu tento de todas as formas encontrar um buraco, um bueiro ou uma toca para me enfiar e conseguir ser feliz em meio a toda essa hipocrisia e toda essa aleatoriedade sem sentido que não a leva a lugar nenhum e que norteia todos ao meu redor.
   E eu consigo ser feliz quando estou ao seu lado. Mas eu não estou ao seu lado. E, aparentemente, não vou estar. Pois se não há lugar nessa cidade para mim, nem nessa sociedade, aparentemente não há lugar para mim também no seu mundo.

   Talvez eu devesse simplesmente ir embora. E deixar tudo seguir seu curso, Evelyn...

L.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Carta 046

Mais um ano, Evelyn.
E eu estou sentado debaixo de um viaduto, bebendo e fumando.
Acima de mim, o silêncio de um céu poluído.
Ao meu redor, os fantasmas que assombram essa cidade amaldiçoada.

Embriagado, eu morro pouco a pouco.
Sozinho, vejo minha vida se encurtando como o cigarro em minhas mãos.

Menos um ano, Evelyn.
E eu estou deitado à sombra de um viaduto.
Acima de mim, fumaça e solidão.
Ao meu redor, o vazio.

Cansado, eu sinto meu peito oco, meus olhos marejados e minha boca seca.
Inerte, espero a noite me levar para qualquer lugar.

Qualquer lugar que seja um pouco mais perto de você.