sexta-feira, 20 de julho de 2012

Carta 020

Você foi e levou tanto com você.
E eu fiquei. E comigo, o que ficou de você?
Saudade, lembrança, esperança,
Dúvidas, sentimentos e arrependimentos...?

Você partiu e levou contigo minha felicidade, 
E levou também minha tristeza.
E eu fiquei aqui, só, nessa cidade
Só eu e toda minha saudade.

E hoje me descobri tão vazio,
Tão oco, tão devoluto...
Imane como a carcaça de um navio
esperando se desfazer no oceano, resoluto...

terça-feira, 17 de julho de 2012

Carta 018

Evelyn..

Uma partida sem um último beijo, um último abraço...
Um final sem final... Não é um final.
Não é certo.
E eu vou enlouquecer se isso tudo se acabar de um dia para o outro.
Evelyn, eu caminho agora sobre o fio da navalha.
Eu caminho na beira da sanidade - No limiar da saudade.
Você nem foi e eu já sinto sua falta.
Saudade que sangra. Saudade que afoga o peito e se vê no rosto...
Saudade essa que eu vou deixar guardada na minha mesa de cabeceira, com a qual eu me sentarei no café da manhã e levarei para a cama de noite...
...E o que eu quero não é nem que você fique. O que eu quero é só você.
E, se tudo dependesse de mim, eu me mudaria com você. Para onde você fosse. Para o norte ou para o sul, para o céu ou para o inferno, eu estaria lá contigo...


"É que eu te amo, meu mar sem fim,
Porque és o riso que passeia dentro de mim
E essa dor dentro de ti a andar sou eu."

sábado, 14 de julho de 2012

Carta 017

Evelyn,

  Tenho tido surtos de catatonismo nas últimas quarenta e oito horas, e você sabe o porquê.
  Tenho dormido pouco, ou não dormido. Tenho pensado demais, e falado de menos. Tenho tentado criar alguma linha de raciocínio no meio desse caos, tentado tirar alguma lição disso tudo... Mas eu não tenho conseguido manter uma linha de raciocínio por tempo suficiente sequer para chamá-la de linha de raciocínio.      
  Devaneios, ilusões, desilusões, lembranças...
  Minha fuga da realidade, minha admiração por você, meu egoísmo... Diabos, Evelyn... Eu acho que estou sim assustado com tudo isso.
  E há tanta coisa não dita entre nós. Tantas meias palavras e meios sorrisos. Olhares longos demais e abraços curtos demais... Algum dia poderíamos funcionar, Evelyn? Existe algum lugar onde nossos caminhos podem ser juntos...?

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Carta 016

Eu estou perdido em meio a um mar de concreto.
Náufrago no baixo centro.
Afogo-me em pó e poeira e fumaça.
Encho meus pulmões com cinzas da mesma cor que a cidade.
Cinzas da mesma cor que o céu e da mesma cor que minha alma.

Traço minha peregrinação no meio-fio,
A passo e compasso do canto dos excluídos.
Caminho entre bêbados e drogados e prostitutas e artistas;
Silenciosos como o frio eles passam,
Silencioso como o próprio vento eu passo.

Estou fadado a afogar-me neste mar de concreto?
Com os pulmões cheios de piche,
Os órgãos petrificados como meu olhar solene,
Para sempre agora fitando o vazio?

Como um obelisco cravado no coração da cidade,
Minha silhueta umbrátil zelaria pelos vagabundos
e cuidaria e guiaria todos os expatriados inoficiais,
Órfãos de direito e de valor. De razão e quiçá de emoção.