quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Carta 061

Hoje eu acordei com o rosto na areia.
Não me lembro de muito da noite anterior... O gosto de álcool e mel ainda estava em meus lábios quando o sol e o calor me fizeram despertar. 
Acordar ao lado das ondas é como acordar ao seu lado. 
Ver o azul-safira do Oceano ao despertar é como despertar do seu lado...

Hoje eu atravessei essa ilha inteira à pé, trilhando o caminho que outrora trilhamos juntos.
É possível que, mesmo ausente, eu possa te perder?
Juntos subimos o pequeno morro que divide as enseadas, e atravessamos a montanha que divide a ilha em duas.  Escoltados pelo vento ululante e pelo canto das marés, desenhamos nossos passos n'areia conforme o sol descia preguiçoso no horizonte. Novamente percorremos o istmo e seguimos cada vez mais ao norte, enquanto as ondas apagavam as provas de que algum dia alguém marcou essas brancas areias.
E, quanto mais ao norte eu ia, mais meus ombros pesavam.
Mais salgado era o ar. Mais selvagem e escuro era o mar.
Mais carregadas as nuvens...
E então eu olhei para trás e vi apenas meus passos na areia.
Quando foi que você desviou seu caminho?
Em que momento eu soltei de sua mão?
Em que momento não éramos mais um só...?
Quando foi que os ventos do norte se tornaram de súbito tão fortes a ponto de você se assustar e não querer mais continuar?
Sem você aqui, Evelyn, os ventos são gelados. O mar está sempre de ressaca, hostil, e nenhuma andorinha ousa planar...

Hoje eu adormeci com o rosto na areia.
Desesperado, tentei me esquecer da sua ausência me intoxicando com as bebidas feitas à base de mel e álcool que são típicas do norte da ilha. E o sabor adocicado ainda escorria em minha barba quando eu adormeci, velado pelo frio e pela pálida luz da lua.
Dormir ao lado da tempestade que se aproxima é como te perder.
Ver o céu cinza ao adormecer é adormecer longe de você...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Carta 060

Eu estou enlouquecendo, Evelyn?
Pois eu sinto seu perfume durante o pôr-do-sol e a alvorada na enseada.
Eu ouço sua voz nas ondas da rebentação.
E eu vejo sua silhueta ao longe, no limiar do horizonte se perdendo na escuridão...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Carta 059

Há dois anos eu te enviei a primeira carta, Evelyn, incerto.
Sem você estar de fato aqui, eu falava com você.
E aí você apareceu. E depois você partiu.
E essa cadeia de eventos, onde você se materializava à minha frente e no instante seguinte não mais existia se repetiu algumas vezes. E eu te perdia, e eu perdia o ar.
E um dia, você não voltou.
E eu esperei.
E eu esperei.
E eu esperei.
E você não voltou.
E hoje, depois de dois anos, depois de dois longos anos, eu recebi uma carta sua.
Apenas isso. Apenas agora.
E por quê? O serviço do correio demorou a lhe entregar o envelope? A maré fez a garrafa se atrasar? Ou o pombo responsável por entregá-la se perdeu no meio do caminho?
...Ou você se esqueceu esse tempo todo?