quarta-feira, 26 de junho de 2013

Carta 042

Eu espero morrer vazio de mim mesmo.

Passeio pela vida dos outros e, com ou sem permissão, semeio um pouco de mim mesmo na vida deles.
E, por onde quer que você vá, se eu por lá já passei, um pouco de mim você verá.
Seja nas palavras do velho louco sob a cachoeira,
Seja nas marcas que emolduram o espelho naquele hotel no centro de Curitiba,
Seja no breve sorriso de identificação do violonista numa ilha qualquer,
Seja o meu sotaque que já não pertence mais a lugar nenhum,
Seja na marca de pneu sobre alguma autoestrada
Ou até mesmo na memória quase apagada da senhora que mora ao lado do alambique.
Não obstante, a cada centeia de mim que eu perco para o mundo, recolho do mundo um pedaço novo de mim mesmo.
Seja a simpatia dos gitanos que conheci enquanto procurava um caminho numa estrada qualquer,
Seja as mensagens, os dizeres e as eternizadas juras de amor eterno que marcam as paredes de um hotel no litoral do Paraná,
Seja o sorriso quase pueril do vendedor de algodão-doce que conheci por simples acaso,
Sejam os gritos por liberdade e justiça que gritei e ouvi enquanto dividia as avenidas com meus mais de duzentos mil irmãos,
Ou até mesmo as intermináveis risadas que já ouvi e até hoje ecoam em minha memória, ou os rios de lágrimas que  enxuguei e até compartilhei...
Seja toda essa troca justa ou não,
À despeito de toda a saudade que faz meu peito pesar,
E apesar da dor da saudade que possa vir a me assombrar,
Eu espero sim poder me semear pelo mundo e pelas pessoas pelas quais eu passar.
Espero cada vez mais de vida me preencher, e cada vez mais de mim me desfazer...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Carta 041

Mimha querida Evelyn,

   Estou deitado em meu leito hospitalar, uma pequena choupana perdida no hemisfério entre duas nações que eu mal conheço, onde, de um lado da fronteira, se encontra um infinito de coisas das quais meu peito sente falta, e, do outro, há outro milhar de coisas que eu sequer conheço - e quiçá jamais conhecerei - e já sinto falta.
   Sinto todo o meu corpo lutando contra si mesmo. Um espetáculo circense de dor e agonia. E, no meio do picadeiro, estou eu.
   Admirável público, observem enquanto eu desapareço!
   Admirável público, observem enquanto eu padeço!

***

   Eu abro meus olhos preguiçosamente. Ao meu lado, o jogo de ervas, comprimidos e pedras místicas do curandeiro velam meu corpo. Suas ervas cheiram a lírios. Me pergunto se ele pretendia usá-los para me tratar ou para adornar minha cova. Seus comprimidos se parecem dietilamina de ácido lisérgico. Suas pedras místicas bem que poderiam ter sido extraídas de meu próprio rim. Três perfeitas pedras afiadas e brilhantes de lápis-lazúli adornando minhas entranhas.
   Entorpecido, me levanto e caminho cambaleante até a porta. Minhas pupilas dilatadas aliadas à minha dor de cabeça me fazem esbarrar nas sombras desfocadas dos móveis na choupana - E quiçá até no próprio curandeiro, que bem poderia estar derretendo sobre uma mesa ou uma escrivaninha relatando sua jornada do dia anterior através dos labirintois distorcidos de sua própria mente regada a raízes enteógenas e folhas mágicas.
    Lá fora, a lua me cega como se fosse dia.
   Dietilamida de ácido lisérgico faz isso com você.
   Meus pés caminham sobre a fina camada de vácuo que existe entre o chão e eu.
   Quando você toca algo, não importa o quê, você nunca toca algo. Não de verdade.
   Ouço um som. Ao meu redor, as estrelas despencam do firmamento e a lua se desmancha como um dente-de-leão. Eu olho e, longe n'Orizonte, vejo a silhueta de uma menina.
   Siga o Coelho Branco.
   Meus pés se movem sozinhos em direção a ela. Ouço o som dos meus passos bem atrás de mim. Depois de caminhar os primeiros metros a inércia se encarrega de te manter em movimento.
   Os passos atrás de mim tornam-se mais distantes. Caminho mais rápido que a velocidade do som. Avanço cada vez mais rápido através da noite que se desfaz - literalmente - à minha volta.
   "Você está no caminho errado!", gritou a voz atrás de mim. "Você está voltando!"
   Os passos atrás de mim cessaram. Por cima de meu ombro, vi a silhueta do curandeiro distante agora, entre a choupana e eu.
   "Você está voltando!", ele gritou.
   "Sim", respondi.
   "O coelho branco", respondi.
   "Mas é o caminho errado!" ele disse.
   "Não".
   Respondi.
   Não. O caminho certo é sempre o caminho que me leva até ela. E eu corri. Mais rápido que meus pés. Mais rápido que meus pensamentos. Mais rápido que a noite moribunda, eu corri.
   Eu estou voltando, Evelyn. Voltando para você. Seguindo o coelho branco. E eu devo chegar a tempo da hora do chá, murri shukar.


L.