quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Carta 026

Evelyn,

   Eu não sei exatamente como aconteceu. Eu acordei e, ao me olhar no espelho, notei algo de diferente.
   Há algo dentro de mim dividido. Meu espírito se partiu em dois. Um pedaço de mim mesmo deseja me trair. Sinto meus ventrículos se esforçando para bombear meu sangue em direções opostas. Sinto os dois hemisférios do meu cérebro se repelirem.


   Sinto sua falta todo dia que não te vejo. Quero você comigo dia e noite. Preciso de você. Amo você.
   É com você que quero trilhar minha história sobre essa terra. É com você que quero conhecer todas as serras nubladas, todas as praias desertas, todas as cachoeiras solitárias, todas as ruínas abandonadas, todas as montanhas silenciosas e as mais barulhentas capitais, as mais agitadas cidades, as mais distantes províncias...
***
   Tenho medo de continuar assim com você. Tenho medo de nossa proximidade nos afastar. Tenho medo que a paixão ou o amor ou o que quer que seja esse sentimento entre nós mingue por conta de nosso contato.
   Quero fugir. Quero desaparecer. Com peso na consciência, com dor no coração, com lágrimas nos olhos e um nó na garganta, eu quero sumir no horizonte. Com o coração apertado, o peito sufocando, eu quero te deixar. Eu quero virar lembrança para, um dia, voltar a ser presente, voltar a ser realidade. Para quem sabe então passar de "eu" para "nós"...


Eu não sei exatamente como aconteceu. Eu acordei e não conseguia mais me olhar no espelho. Deitado, confuso, eu não sabia qual metade minha era insana - em qual metade eu era eu. Estava escuro. Dentro do meu peito, um turbilhão de sentimentos. Dentro da minha cabeça, um turbilhão de pensamentos. Caos que, derradeiramente, acaba em vazio. Eu abri os olhos e encarei a escuridão. Eu estendi meu braço para o alto em um pedido desesperado de ajuda. E eu esperei você me puxar para a superfície...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Carta 025

 Chovia forte. Eu, perdido e com frio, caminhei até a chapeleira e vesti um sobretudo de lã e coloquei uma boina esverdeada para te ver. Limpei meus óculos e girei a chave na porta. Dois estalos, a porta se abriu com um gemido e o vento acertou-me bem na face. Frio. Fechei a porta com a chave e caminhei pelo ladrilho molhado. A água escorria pelo meu rosto incessantemente. o vento levantava as abas de meu sobretudo e tentava me empurrar de volta para casa. A noite, opressora, pesava sobre mim. Ninguém queria que eu fosse até você, mas nem mesmo o tempo, nem mesmo a água, ou o fogo ou a noite me impediriam de te ver. Nem a mão de deus me puxando pelos ombros me faria parar de andar em direção a sua casa. Nem o tridente ensanguentado do diabo cravado em meu peito me faria parar de andar em direção a você.
 Eu parei em frente a sua casa. Meu coração batia forte. Eu bati à sua porta, mas você não me respondeu. Eu insisti, mas você não ouviu. Eu gritei, mas a chuva calou meu grito. Eu esperei. Eu esperei. Eu esperei, mas você não me ouviu. O vizinho, surpreso em me ver na calçada de noite debaixo de tão forte chuva, me disse que você não estava. Que você já tinha ido. Que você foi. Você foi, e eu fiquei. Sozinho.
 Eu, calado, tracei o caminho de volta para minha casa. Eu levei mais de duas horas para voltar - Mais que o dobro do que levei para ir. Eu me perdi. Eu desisti. Eu não aguentei, Evelyn. Eu vaguei sozinho debaixo da chuva, eu me sentei no meio-fio. Sozinho. Só havia eu nas ruas, só havia eu esperando o dilúvio me levar. Eu, o homem que não embarcou na Arca de Noé por opção. Por querer se afogar. Por querer me afogar. Eu, o homem que não tentou fugir de Gomorra por querer ver o fogo me consumir.
 E o que moveu meus pés de volta à minha casa, horas depois de meu colapso, foi a tola esperança de te rever. De acreditar que um dia, você voltaria. Por que sem você, não tem graça. Por que sem você, eu sou oco. Por que talvez eu precise mesmo de você. Porque nenhum abraço acolhe como o seu, Evelyn. Porque nenhum beijo é como o seu, Evelyn. Porque ninguém é como você, Evelyn...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Carta 024

Se o mundo acabasse hoje, Evelyn
Que acabasse de mãos dadas conosco.

Eu e você de mãos dadas sobre a última das pirâmides,
Com os olhares pousados n'orizonte cor-de-rosa.

Eu e você proseando e peregrinando entre as montanhas de pedra,
E nós nos perdendo sobre as cachoeiras e sob as colinas e sob as nuvens.

Nós dois passando por debaixo de pontes de concreto,
Sobre pontes de madeira, sobre todas as pontes do Condado de Madison.

Nós, de Santos ao Arpoador.
Nós, da Irlanda ao Marrocos.
Nós em Nova Iorque.
Nós em Budapeste.
Berlim.
São Petersburgo.
Praga.

Nós, juntos no fim, e para além disso...
Desde sempre, como sempre, para sempre...