segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Carta 071

Caminho há dezessete semanas já, Evelyn, sobre o cinza que se estende até onde alcança a vista.
Aqui tudo é estático. Aqui, nada se move. Aqui nada é vivo, mesmo sem estar realmente morto.
O que eu pensava ser neve continua caindo preguiçosamente. Sem vento, o único som que corta o silêncio funéreo é o som dos meus pés afundando, passo a passo, no terreno instável.
Meus cabelos se tornaram cinza - não pela idade.
Minha pele está cinza. Sou um brâmane banhado em cinzas caminhando cego por lugar nenhum.
Sigo o sol poente no horizonte. Ele não é confiável aqui. Nenhum sol que brilhe à meia-luz perpetuamente é confiável. Eu caminho para o Oeste esperando encontrar a noite e as estrelas logo.

Olhando para cima, deixando as cinzas que caem devagar se acumularem ainda mais em minha barba, estendi o braço e tomei em minhas mãos um pedaço de papel chamuscado. O ar aqui queima.
Demorei alguns dias para entender que o que eu pensei ser neve não era neve.
Trazendo para perto de meus olhos, com certa dificuldade consegui ler as primeiras palavras do que estava escrito naquele papel: "Minha querida Evelyn..."